O Metrónomo no Meio do Fumo — Augustus Pablo e a Disciplina de Permanecer
Quando a repetição se torna um refúgio e o ritmo ensina o corpo a abrandar.
Por Rafi Mercer
Os primeiros minutos nunca fazem parte do registo.
Eles pertencem ao mundo.
Pus a tocar o álbum *Rockers Meets King Tubbys in a Firehouse* — frequentemente reeditado com nomes como *Rockers United! * — de Augustus Pablo, e, a princípio, o álbum teve de lutar para se impor. Pensamentos ainda por definir. A leve sensação de movimento. A vontade subtil de ajustar alguma coisa, verificar alguma coisa, fazer alguma coisa. A vida não se rende facilmente.
A agulha assenta. O baixo entra. O rimshot ressoa. A melódica surge — com um som fino, semelhante ao de uma palheta, quase frágil perante o peso dos graves de Kingston. E, ainda assim, a mente resiste.
Então, algo muda.
A batida não tem pressa. Não se desenvolve da mesma forma que as produções modernas. Não há nenhum crescendo concebido para estimular a tua dopamina. Há apenas repetição — uma repetição paciente, precisa e sem constrangimentos. Um pulso que poderia continuar muito depois de saíres da sala.
Gravada em 1974–75 no Randy’s e moldada nas câmaras de eco de King Tubby, esta música não procurava entrar nas tabelas. Pablo, com a sua melódica, e Tubby, a criar espaço a partir da fita, estavam a construir espaços. O baixo de músicos como Aston «Family Man» Barrett, a bateria frequentemente liderada por Carlton Barrett — estes eram os alicerces, não um mero adorno. O dub era subtração. Retirar a voz. Retirar o excesso. Deixar a pressão. Deixar o espaço.
E é nesse espaço que algo acontece.
Se ficares.
Por volta dos cinco minutos, o mundo começa a ficar para trás em relação ao ritmo. O efeito de metrónomo ganha força. Cada compasso leva-nos cada vez mais para o interior. O rimshot torna-se a respiração. O baixo torna-se a coluna vertebral. O eco já não é um efeito — é a distância medida em tempo.
O dub não exige atenção. Condiciona-a.
É por isso que ouvir um álbum — o álbum na íntegra — é importante. Não uma faixa. Não uma seleção escolhida a dedo. O percurso. A paciência. A recalibração gradual do teu sistema nervoso.
A forma moderna de ouvir música ensina-nos a seguir em frente. A saltar. A provar. A dar uma vista de olhos. Recolhemos fragmentos da cultura como se fossem postais. Mas um álbum exige outra coisa: duração.
Quando ouço o Pablo com atenção, noto primeiro a resistência. A impaciência. A parte de mim que ainda está programada para interromper. E depois noto a rendição. O corpo abranda. A sala parece mais pesada, mais silenciosa. A mente, menos agitada.
Uma cidade pode orientar-nos. Pode oferecer-nos ruas, luzes, movimento. Mas um álbum é uma sala. E as salas transformam-nos de forma diferente. Alteram a nossa postura. Influenciam a nossa respiração. Criam limites que protegem a nossa atenção.
O dub, em meados dos anos setenta, tinha esta característica arquitetónica. As misturas do Tubby não eram simplesmente remixes; eram intervenções espaciais. Retirar a voz. Inundar a caixa com eco. Trazer o baixo para a frente até parecer uma presença física. Não estás a consumir música. Estás a habitá-la.
Há disciplina em permanecer.
Os primeiros cinco minutos pertencem ao mundo. Os vinte seguintes pertencem-te a ti.
Essa é a rebelião silenciosa. Não é barulhenta. Não é dramática. É apenas a decisão de deixar o metrónomo continuar a contar e de permanecer sentado enquanto isso acontece.
Quando a última faixa vai-se esmorecendo, nada de extraordinário aconteceu, no sentido óbvio da palavra. Não há fogos de artifício. Não há nenhum clímax orquestrado para suscitar aplausos. Mas algo dentro de nós parece ter-se recalibrado. A agitação diminuiu. A mente está menos dispersa. A atenção parece mais intensa — no bom sentido.
É assim que podemos ouvir de forma diferente.
Escolhe um álbum. Deixa-o tocar sem interrupção. Repara na resistência. Fica lá na mesma. Deixa que a repetição faça o seu efeito.
Numa cultura concebida para a aceleração, a coragem de manter um único ritmo pode ser um dos atos mais radicais ao nosso alcance.
O Dub já tinha percebido isso muito antes de nós o termos esquecido.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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