O Ruído Branco de Marraquexe

O Ruído Branco de Marraquexe

Por Rafi Mercer

Marraquexe tem um ritmo que não se consegue ignorar. Não é apenas uma cidade de sons — é uma cidade feita de sons. A cada hora, algo ressoa: orações, motores, mercados, passos, gritos. O ruído não se sobrepõe educadamente; colide. Mas, algures nessa colisão, transforma-se em música.

Esta manhã, fiquei junto a uma janela aberta em Gueliz, a zona moderna da cidade, e limitei-me a ouvir. O ar estava repleto de sons — motas a rugir no meio do pó, táxis a buzinar em ritmos irregulares, vozes a regatear lá em baixo e, algures, ao longe, o som fraco de uma sirene da polícia. Depois, de uma mesquita próxima, ouviu-se o chamamento para a oração. O som subia e descia com graça absoluta, cortando o mesmo ar que transportava a sirene. Ocorreu-me que estes dois sinais — ordem e devoção, controlo e rendição — estavam a ocorrer ao mesmo tempo, coexistindo na perfeição na mesma frequência.

E, por alguma razão, isso levou-me diretamente de volta a 1989, a uma pequena sala de estudantes, cheia de suor, onde ouvi pela primeira vez o KRS-One a interpretar «Sound of da Police». Na altura, estava na universidade, a estudar menos do que devia e a ouvir mais do que me apercebia. Naquela noite, a música atingiu-me como um sermão. Não era apenas hip-hop; era a verdade transformada em ritmo — protesto, propósito, pulsação. A amostra da sirene não era apenas um efeito sonoro; era um sinal. Dizia-nos que o mundo estava vivo, alerta, imperfeito, mas ainda assim em movimento.

Agora, aqui em Marraquexe, tantos anos depois, ao ouvir as sirenes reais a interromperem o chamamento para a oração, percebi como essa frequência é intemporal. O significado muda, mas a energia permanece a mesma. Naquela altura, o som significava resistência. Aqui, significa ritmo. A vibração de uma cidade que se mantém acordada.

É isso que caracteriza Marraquexe: a sua paisagem sonora não é orquestrada, é instintiva. O que noutro lugar poderia parecer ruído, aqui parece vida. A cidade não separa o sagrado do profano. A voz do muezim flui pelas mesmas ruas que o zumbido dos motores a gasóleo e o murmúrio das crianças. O ritmo de um torna-se o contraponto do outro.

Durante algum tempo, fiquei ali parado a pensar no ruído branco — aquela presença constante de som que mantém tudo unido. Em algumas cidades, o ruído branco provém do ar condicionado ou do trânsito. Aqui, está vivo. Respira. Muda ao longo do dia. Tem ritmo.

Quando a chamada para a oração começa, a cidade não pára — ela adapta-se. As pessoas fazem uma pausa, ajustam-se, reorientam-se. As sirenes não se esbatem; limitam-se a tornar-se parte da textura. E, no entanto, não há dissonância. É harmonia através do contraste, unidade através da interrupção.

Sempre acreditei que a música e a vida partilham a mesma arquitetura. Cada som tem um papel, mesmo aqueles que parecem deslocados. O ruído da polícia — o estrondo agudo da autoridade — e a voz da fé — a invocação longa e suave — chamam ambos a atenção das pessoas. Um diz : «olha o que está a acontecer». O outro diz: «lembra-te de quem és». Ambos, à sua maneira, mantêm a cidade acordada.

Mais tarde, sentado num pequeno café, observei como o ritmo continuava. As scooters passavam a toda a velocidade como redobros de percussão. O dono do café servia chá de menta com a precisão constante de um prato de bateria. Algures atrás do muro do pátio, um rádio tocava Abdelhadi Belkhayat, cuja voz atravessava a estática como um trompete atravessa o fumo. É fácil esquecer, no conforto da nossa audição digital, que o mundo é a sua própria orquestra — sem masterização, imprevisível, em bruto.

É por isso que acho que encontro conforto aqui. O som de Marraquexe não permite o distanciamento. Não se pode ignorá-lo, não se pode silenciá-lo, não se pode pô-lo em pausa. Obriga-nos a ouvir — com toda a atenção, no momento presente — tudo. As imperfeições, as interrupções, o ruído humano que a vida moderna tantas vezes elimina.

Ao cair da noite, voltei a passear pela Medina. O ar tinha arrefecido, mas o som continuava eletrizante. O chamamento à oração ecoou mais uma vez, desta vez proveniente de uma mesquita diferente, com um ligeiro atraso, sobrepondo-se a outro do outro lado da cidade — uma espécie de reverberação humana. Por um momento, pensei na distância que aquelas frequências percorriam, ricocheteando nas paredes de terracota, atravessando os telhados, descendo pelas ruelas. O som como arquitetura. A fé como frequência.

Então, uma sirene voltou a soar — distante, fraca, quase melódica. E lá estava ela: a mesma contradição, a mesma coexistência. A cidade a chamar-se a si própria à ordem e à reflexão, ao mesmo tempo.

Em Marraquexe, até o ruído branco tem cor. Aqui, não é o silêncio que liga as coisas, mas sim a energia. Cada som tem um propósito — mesmo aqueles que tentamos ignorar. E se ouvirmos com atenção durante tempo suficiente, começamos a perceber o que a cidade está realmente a dizer: mantém-te acordado, mantém-te vivo, mantém-te presente.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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