Para o Vic, «Quando uma voz se torna uma memória» — Sobre ouvir antes que seja tarde demais
Por Rafi Mercer
Durante as férias de Natal, fui visitar um velho amigo. Não velho em termos de idade — velho em termos de tempo. O tipo de amigo cuja presença remonta a tanto tempo que já nem te lembras de o teres conhecido, apenas de que ele sempre esteve lá. O Vic é uma dessas pessoas. Nunca nos afastámos. Nunca precisámos de manter o contacto. A vida seguiu o seu curso, mas o laço entre nós permaneceu intacto, como uma melodia que nunca sai completamente da cabeça.
Ela vive com cancro há dez anos. «Lutar» é a palavra que as pessoas usam, embora, quando se passa tempo suficiente com alguém, se perceba que não se trata tanto de uma luta, mas sim de uma resistência — uma negociação silenciosa e diária com a dor, a fadiga, a esperança e a aceitação. Ao vê-la agora, senti algo que tenho evitado cuidadosamente nomear: a sensação de que o nosso tempo juntos está a chegar ao fim.
Mas quando lá estive, ela não era a «Vic doente». Era apenas a Vic. Rimos. Falámos disparates. Brincámos, como fazem os velhos amigos, voltando a entrar numa linguagem comum que não precisa de aquecimento. O tempo dobrou-se sobre si mesmo. Os anos desapareceram. Por um momento, nada estava a acabar.
No entanto, quando parti, algo ficou comigo. Não era medo. Não era pânico. Era algo mais suave e, ao mesmo tempo, mais pesado. Era a consciência.
Desde então, tenho passado o dia todo a ouvir — não só música, mas também as memórias. O som da voz dela, tal como tem estado presente na minha vida. A forma como certas canções são agora indissociáveis dos momentos que partilhámos. A sensação de ser conhecido por alguém há tanto tempo que já nem é preciso dar explicações.
Em breve, a voz dela já não existirá no presente. Passará a viver onde todas as vozes acabam por ir — na memória, no eco, no espaço silencioso por trás do pensamento. A música que partilhámos não desaparecerá, mas mudará de forma. Já não será algo que ouvimos juntos. Será algo que eu levarei comigo.
É isso que há de especial na audição e que nenhum sistema, nenhum algoritmo, nenhum arquivo consegue resolver. O som é temporário. A presença, ainda mais. O que estamos realmente a fazer quando ouvimos — música, uns aos outros, o espaço em que nos encontramos — é preparar-nos antecipadamente para a perda. Não falamos disso dessa forma, mas talvez devêssemos.
Ouvir é prestar atenção sem se apropriar do que é dito.
É dizer: «Estou aqui contigo agora», sabendo que não posso ficar com isto.
Há uma estranha clareza que surge quando nos sentamos com alguém cujo tempo é visivelmente limitado. O ruído habitual desaparece. As preocupações fúteis perdem o seu peso. Não fazemos várias coisas ao mesmo tempo a nível emocional. Não nos apressamos. Ouvimos com atenção — sem esperar pela nossa vez de falar, sem preparar respostas, sem pensar no que vem a seguir.
Ouve porque este momento é insubstituível.
O que mais me marcou não foi a tristeza, embora essa também esteja presente. Foi a gratidão. A gratidão por nunca nos termos afastado um do outro. Por não precisarmos de um motivo para nos mantermos ligados. Por o riso continuar a surgir com facilidade. Por o amor não precisar de ser encenado.
E talvez seja essa a lição discreta que o Vic me ensinou sem sequer se dar conta: que o valor de uma vida não se mede pela sua duração, mas pela profundidade com que foi partilhada.
Quando a voz dela se tornar uma memória, não se desvanecerá. Ficará gravada. Viverá ao lado da música, das piadas, das tardes comuns que acabaram por não ser nada comuns. Vai lembrar-me que ouvir não é uma competência que se domina, mas uma atitude que se escolhe.
Ouvir alguém enquanto ainda se pode.
Ouvir-lhe atentamente.
Deixar que o som penetre.
Porque um dia, todos nós ficaremos reduzidos a ecos nas pessoas que nos amaram. E se isso for verdade, então a coisa mais significativa que podemos fazer é ouvir com atenção — enquanto a voz ainda está quente, ainda está presente, ainda nos responde.
Isto é para o Vic.
Pelo som de uma amizade que nunca se foi.
Pela música que sempre levará o nome dela.
Pelos momentos que não acabam — apenas mudam de lugar.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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