Quando os UB40 eram reis
Por Rafi Mercer
Ontem à noite, por razões que não consigo explicar muito bem, a música «King», dos UB40, veio-me à cabeça. Sabes quando é uma música que te encontra, e não o contrário? Não é propriamente nostalgia — é mais como se uma memória te desse um toque no ombro. Já não a ouvia há anos, mas assim que aquela linha de baixo começou a pulsar na minha cabeça, consegui senti-la novamente — a forma, o peso, o calor daquele som ska dos primeiros tempos que outrora transmitia tanto significado.
O ska era uma realidade — não apenas um género, mas um movimento. Trazia consigo ritmo, identidade e rebeldia. Era a ponte da Grã-Bretanha entre o reggae e o pop, entre a comunidade e a individualidade. E os UB40, no seu melhor, personificavam isso mesmo. Antes da fama e dos sucessos nas tabelas, houve «Signing Off» — o seu álbum de estreia de 1980, gravado com um orçamento reduzidíssimo em Birmingham e com uma capa concebida para se parecer com um formulário de subsídio de desemprego. Político, pessoal, inconfundivelmente da classe trabalhadora. Dava para ouvir a vida em cada nota — os percursos dos autocarros, o nevoeiro, o desemprego, o riso, o protesto.
A faixa «King» continua a parecer uma declaração. Escrita sobre Martin Luther King Jr., não é apenas uma canção — é um lamento. Uma reflexão sobre o que acontece quando os ideais colidem com a realidade. Aquele ritmo suave e fora do compasso confere-lhe uma espécie de balanço melancólico, como se a esperança respirasse por entre o cansaço. Os metais soam ligeiramente cansados, humanos, reais. E foi isso que a tornou poderosa: não era uma rebelião polida, era uma experiência vivida.
Ao ouvir King agora, num mundo em que os algoritmos transformaram tudo numa miscelânea de géneros, percebe-se como esse som se tornou raro — o som da convicção. Música que era política, mas não performativa. Rítmica, mas reflexiva. Era música que exigia algo de nós.
O ska não foi concebido para ser ouvido de fundo. Tinha demasiado dinamismo, demasiado entusiasmo. Não bastava ouvi-lo — era preciso senti-lo. E acho que é por isso que se encaixa tão naturalmente na filosofia do Tracks & Tales. Porque os bares de música — pelo menos os bons — assentam no mesmo princípio: som com intenção. Música que exige que estejas presente.
Vale a pena voltar a ouvir «Signing Off» se já não o fazes há algum tempo. A forma como as correntes subjacentes do dub se desenrolam, as linhas dos metais sobem e descem e as vozes — despretensiosas, diretas — continuam a destacar-se décadas depois. É possível sentir a linhagem que viria a moldar grande parte da música britânica que se seguiu: The Specials, Madness, The Beat e até mesmo as cenas do trip-hop e do drum’n’bass que surgiram mais tarde. O ska deu ao Reino Unido ritmo e realismo.
Talvez seja altura de voltarmos a dar destaque a esse som. Numa era de playlists intermináveis, o King continua a soar como um propósito. Como uma comunidade. Como algo que importava. E talvez essa seja a lição silenciosa — que ouvir com atenção não se resume apenas à fidelidade ou ao formato, mas sim a recordar o «porquê» por trás do «o quê».
Por isso, esta manhã, enquanto estou sentado com um café e aquela música inconfundível e fora do comum a tocar pelos altifalantes, lembro-me de que algumas canções não envelhecem — limitam-se a esperar para serem redescobertas.
King, dos UB40, é um deles.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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