Por que é que, de repente, o mundo está a pesquisar «Kissa» no Google?
Um «kissa», na sua essência, nunca foi apenas um café. Era um refúgio construído em torno do som gravado.
Por Rafi Mercer
Há uma palavra discreta a flutuar pelo mundo mais uma vez — kissa. Ela insinua-se nas conversas em Tóquio, surge em pesquisas a altas horas da noite em Londres e instala-se nas rendas algorítmicas de Nova Iorque e Barcelona. Uma palavra pequena e discreta, que outrora pertencia às ruelas do Japão do pós-guerra, começou a brilhar com uma nova frequência. E se acompanharmos de perto esta tendência, veremos a mesma curva que tenho vindo a observar há meses: as pessoas não procuram apenas locais para beber; procuram locais para ouvir.
Um «kissa», na sua essência, nunca foi apenas um café. Era um refúgio construído em torno do som gravado — uma sala onde um álbum podia ter mais peso do que uma conversa, onde um único disco conseguia prender a atenção de estranhos durante toda a sua duração. Muito antes de o streaming ter reduzido a música a um mero pano de fundo, estes espaços tratavam a audição como uma arte. Balcões de madeira, fumo de cigarro, capas de discos de jazz alinhadas como ícones. Os primeiros proprietários cuidavam da atmosfera com um cuidado quase monástico: vozes baixas, amplificadores potentes, o silêncio antes de a agulha tocar o disco.

Era uma espécie de devoção — modesta, obstinada, maravilhosamente humana.
E agora o mundo voltou a procurá-lo.
Talvez não devesse ficar surpreendido. Passámos a última década afogados na abundância: faixas infinitas, escolhas infinitas, ruído infinito. O pêndulo cultural acaba sempre por oscilar de volta. As pessoas querem voltar a sentir significado, voltar a sentir atrito, voltar a sentir todo o peso de uma canção. Quando alguém pesquisa «o que é um kissa» às 2h14 da manhã — e há quem o faça, em todo o lado —, não creio que esteja à procura de uma definição. Acho que está à procura de um sentimento que quase esqueceu: o momento em que uma sala fica em silêncio, o momento em que uma faixa nos prende, o momento em que o mundo exterior afrouxa o seu aperto o tempo suficiente para respirarmos.
Talvez seja por isso que estes espaços — os modernos bares de audição e os cafés de alta fidelidade que surgiram da antiga tradição dos kissaten — exercem um fascínio tão forte. Não fazem alarde do que oferecem. Convidam, em vez de anunciarem. Lembram-nos que ouvir nunca foi suposto ser uma atividade passiva. Era suposto ser um encontro.
Portanto, sim, o mundo está a pesquisar «kissa» no Google. E se seguirmos a linha da tendência, descobriremos que há outra coisa a crescer a par dela: um desejo de abrandar o ritmo, de nos sentarmos a ouvir os sons, de redescobrir a presença num mundo construído à base de dinamismo. Um «kissa» é simplesmente a porta de entrada. O que as pessoas procuram realmente é a sala que se encontra do outro lado.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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