888 — O refúgio do vinil iluminado a vermelho de Nashville

888 — O refúgio do vinil iluminado a vermelho de Nashville

Por Rafi Mercer

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Nome do local: 888
Morada: 800 Clark Place, Nashville, TN 37203, EUA.
Site: https://888nashville.com/
Instagram: @888Nashville
Telefone: +1 888-383-8610.
Perfil no Spotify: «888 Records Playlist» (ligação para o site oficial). 

O centro de Nashville vibra com a confiança das luzes de néon, um rio de som onde as guitarras brilham e as multidões se inclinam para a frente à espera do refrão. Afaste-se um ou dois quarteirões do caminho mais óbvio e encontrará um pequeno farol vermelho ao pé do JW Marriott: uma porta onde se lê simplesmente «888». No interior, a atmosfera da noite muda. O ambiente torna-se mais intimista; as vozes suavizam-se; o vinil assume o protagonismo. Chamam-lhe restaurante japonês e salão de audição de vinil, o que é correto, mas não faz justiça à intenção. Este é um local onde o jantar é acompanhado pela música, não por gritos; onde um lado de um disco pode viver a sua vida plena e paciente. No seu próprio site, a equipa promete «uma experiência gastronómica japonesa íntima… com um sistema de som concebido para o fazer questionar se são as batidas ou os sabores que o fazem abanar a cabeça», uma frase que parece mero marketing até se sentar e a primeira faixa começar a tocar juntamente com o primeiro copo servido. 

Nashville tem, claro, «salas de audição» — verdadeiros templos para compositores e histórias —, mas o 888 segue outro caminho: para dentro, em direção à fidelidade e à curadoria. A imprensa local descreveu a sua inauguração como um espaço dedicado à audição de discos de vinil, integrado num conceito japonês de luxo: bar de sushi à noite e, ao longo da semana, sessões de audição, apresentações de artistas e destaques de álbuns que transformam o espaço de um local de jantar num santuário. A intenção é subtil, mas inequívoca: deixar que a agulha marque o ritmo e dar à noite uma espinha dorsal de música sequenciada, em vez de playlists ambientais. 

A geometria da sala faz metade do trabalho. Os assentos estão dispostos de forma a favorecer a conversa, não a atuação; a iluminação é mantida suficientemente baixa para fazer brilhar a capa do disco quando este é levado para as mesas de mistura. O ritmo do serviço é atencioso — os pratos encontram os intervalos entre as faixas; os cocktails acompanham o arco de um disco, em vez de apressarem o serviço no bar. Nashville tem o hábito de transformar tudo num palco; aqui, o palco é o próprio som, enquadrado para o aproximar, para o fazer ouvir a respiração entre as notas, o halo num prato. É possível sentir o respeito pelo formato na forma como os sets evoluem: um aquecimento com texturas familiares, uma parte intermédia onde o ritmo abranda e a parte final, onde os seletores oferecem algo de que nem sabias que te faltava. O resultado é um espaço onde o tempo parece prolongar-se. A música não é chamada a impressionar; é convidada a habitar o espaço.

O que torna o 888 especial não é a novidade — os bares de audição têm vindo a proliferar por todo o país — mas sim o contexto. Numa cidade construída em torno da atuação, este é o contraponto: um refúgio onde a arte gravada é a protagonista e onde uma cidade de cantores faz uma pausa para ouvir como os discos soam quando lhes é permitido respirar. Essa tensão — entre a extroversão de Nashville e a contenção do 888 — cria uma energia. Percebe-se isso no balcão de sushi, à medida que a lâmina do chef desce ao ritmo de um hi-hat; ouve-se na forma como os hóspedes baixam a voz quando um disco que está a virar volta ao sulco; sente-se nos cocktails calibrados para se harmonizarem com a música, e não para se sobreporem a ela. A parte do restaurante tem o seu próprio valor, sim, mas é a audição que faz a ligação — a resina que flui lentamente e que une Nashville, o 888, o bar de audição, o salão de audição de vinil, o kissa, o restaurante japonês, o JW Marriott Nashville e a cultura analógica numa única noite. 

Existem outros espaços na cidade que exploram a mesma sensibilidade. O Analog, no Hutton Hotel, descreve-se como um «salão de audição» com ênfase na acústica e nos cocktails — um primo em termos de ambiente, mesmo que se incline mais para a programação ao vivo. Isso prova que o apetite existe: um desejo de intimidade, de som meticulosamente ajustado, de noites que se desenrolam em capítulos, em vez de em rajadas. Mas o 888 é o local a marcar no mapa de Nashville se a sua bússola apontar para o ritual do vinil. 

Ao voltares a sair para a luz vermelha, a cidade retoma o seu barulho — o rugido da Broadway, o bater percussivo das bandas nas esquinas —, mas levas contigo uma Nashville diferente nos ouvidos: uma onde ouvir é um luxo, e a coisa mais moderna que se pode fazer numa noite é deixar um disco tocar até ao «locked groove».

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrever, ou clique aqui para ler mais.

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