Faraday — A frequência do dia-a-dia de Madrid

Faraday — A frequência do dia-a-dia de Madrid

Por Rafi Mercer

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Nome do local: Faraday
Morada: Calle de San Lucas 9, 28004 Madrid, Espanha.
Site: thisisfaraday.com
Instagram: @faradaymadrid

Há um momento em cada cidade em que o ritmo abranda o suficiente para que possas ouvir os teus próprios pensamentos. Em Madrid, esse momento vive no Faraday — um café de vinil no coração de Chueca que, discretamente, se tornou um dos espaços de audição mais característicos da cidade. Não é barulhento, nem grande, nem fica aberto até tarde. É preciso.

Ao atravessar a porta na Calle de San Lucas, a luz muda: um tom dourado suave, filtrado pelas janelas altas sobre a madeira de bétula e o betão escovado. A máquina de café expresso sibila, um gira-discos zumbe e a paisagem sonora vai tomando forma — clareza sem agressividade. O espaço transmite uma sensação de equilíbrio e moderação, com o ar tão cuidadosamente afinado como o café que transporta.

O Faraday autodenomina-se simplesmente «Music & Coffee». Esse eufemismo esconde toda uma arquitetura de cuidado. O sistema de som foi concebido para privilegiar a fidelidade em detrimento do volume: um par de colunas de chão Klipsch Heresy IV alimentadas por um amplificador integrado Yamaha, com um gira-discos Audio-Technica AT-LP7 e uma cápsula Ortofon instalados no centro do balcão. O som é acolhedor, tangível, vivo — na medida certa para preencher o café sem se impor. Quando a agulha toca o disco, a conversa abranda; a música assume a sua própria atmosfera.

Os proprietários — Raúl López e Pablo Cortés, amigos de longa data e colecionadores de discos — criaram o Faraday em 2018 como resposta ao crescente interesse de Madrid tanto pelo café de especialidade como pela audição tranquila. Tinham viajado pelos «jazz kissaten» de Tóquio e pelos cafés de alta fidelidade de Berlim e queriam criar um espaço onde a qualidade e a curiosidade pudessem coexistir. «Não queríamos um bar», disse Raúl numa entrevista. «Queríamos um espaço onde o som fosse tão importante quanto o sabor.»

Durante o dia, o menu parece uma carta de amor à arte europeia do café. Os grãos de origem única variam semanalmente — etíopes, colombianos, ruandeses —, torrados localmente e servidos como café de filtro, Aeropress ou expresso. Cada chávena é acompanhada por um disco de vinil a tocar algures atrás do balcão. Ao final da tarde, a música assume o protagonismo. As listas de reprodução — sempre analógicas — tornam-se a linguagem do espaço.

As sessões de vinil do Faraday são informais, mas cuidadosamente selecionadas. As sextas-feiras são frequentemente as «Blue Note Fridays» — uma rotação de sessões de hard bop e cool jazz: Hank Mobley, Art Blakey, Horace Silver. Os sábados levam-nos a zonas mais cósmicas: Brian Eno, Air, Khruangbin e música de biblioteca mediterrânica vintage. Os domingos tendem a ser mais cheios de alma — Bill Withers, Aretha Franklin, Caetano Veloso, talvez um tema pouco conhecido de uma edição brasileira dos anos 70. Não há cabine de DJ, nem horário, nem anúncios. Quem estiver a servir bebidas pode também estar a tocar, colocando um disco que acabou de limpar e preparar manualmente.

É essa intimidade que confere à sala o seu carácter. É possível ver o disco a girar, ouvir o som da agulha a pousar e sentir o aroma da espuma do café expresso, tudo ao mesmo tempo. Cada camada sensorial reforça as outras. Há uma espécie de coreografia silenciosa nisso — uma troca suave entre o barista e quem o ouve.

O design também contribui para isso. As paredes têm um tratamento acústico com ripas de madeira e tecido para difundir as frequências altas; as mesas estão suficientemente próximas para permitir a conversa, mas dispostas de forma a evitar o eco. Mesmo com a casa cheia, reina uma calma envolvente. Lá fora, Madrid move-se num ritmo de 4/4 — trânsito, risos, barulho —, mas lá dentro, o ritmo abranda para algo como 33⅓ rpm.

A clientela é variada, mas com um temperamento comum: designers, músicos, trabalhadores remotos e viajantes que sabem apreciar a tranquilidade. É possível ver um colecionador de discos a comparar as notas das capas com um jornalista a editar o seu artigo com auscultadores. Os computadores portáteis são permitidos, mas não dominam o ambiente. O café parece menos um espaço de trabalho e mais uma sessão de audição partilhada que, por acaso, serve um café muito bom.

O que é bonito é a contenção. O Faraday não recorre à nostalgia nem a artifícios. Os discos não são meros adereços. A música muda de hora a hora, mas nunca desarmoniza. Às vezes, um cliente habitual traz um disco para tocar — na semana passada, alguém trouxe uma cópia quase em perfeitas condições de «I Want You», de Marvin Gaye. Outro trouxe uma edição japonesa de 1969 de «In a Silent Way», de Miles Davis. Cada disco altera ligeiramente o ambiente, e o café absorve-o como se fosse luz.

Não há um menu oficial de comida para além dos doces, mas mesmo estes são cuidadosamente selecionados — croissants de Panem, biscoitos de matcha, pequenas tarteletes de chocolate, todos apresentados de forma simples. As bebidas incluem chás e sumos naturais e, ao anoitecer, o Faraday organiza ocasionalmente eventos de degustação que combinam café com discos: Yirgacheffe etíope acompanhado de Mulatu Astatke, café colombiano torrado com Joe Bataan, grãos de Sumatra com Nujabes. É uma sinestesia sensorial que aqui parece totalmente natural.

À medida que o sol se põe sobre Chueca, os tons dourados dão lugar ao âmbar, a agulha levanta-se e alguém muda o disco. A gente não se apressa; ouve, saboreia, vira páginas, conversa em voz baixa. Começa-se a perceber o que torna o Faraday especial — não é o seu menu nem a sua decoração, mas sim a sua contenção. É um café que compreende o espaço e que sabe que o som nem sempre tem de o preencher.

Ao regressar a San Lucas, a cidade recupera o seu barulho, mas a tua audição permanece atenta. O mundo parece mais tridimensional. Ouves um acorde de um músico de rua e apercebes-te de como soa acolhedor; ouves passos no pavimento de azulejo como se fossem percussão. É isso o efeito Faraday — uma recalibração da atenção. Não saís apenas com cafeína; saís com os ouvidos renovados.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

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