Formosa Hi-Fi — A Galeria do Som de São Paulo

Formosa Hi-Fi — A Galeria do Som de São Paulo

Por Rafi Mercer

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Nome do local: Formosa Hi-Fi
Morada: Galeria Formosa, Centro, São Paulo, Brasil.
Site: formosahifi.com
Instagram: @formosahifi

São Paulo nunca pára. O trânsito nunca pára de verdade, as avenidas roncam pela noite dentro e até os parques fervilham de conversas. No entanto, no coração do Centro, dentro da Galeria Formosa, há uma porta onde o ritmo muda. A Formosa Hi-Fi é um daqueles espaços raros que ensina uma cidade a ouvir de novo. Não luta contra o ruído; reinterpreta-o, oferecendo um espaço onde a música não é decoração, mas sim estrutura, onde cada disco tem espaço para respirar.

A sala em si transmite uma calma modernista. O betão é suavizado pela madeira, a iluminação é discreta e acolhedora, e as prateleiras estão repletas de capas que abrangem continentes e décadas. É um espaço arquitetónico, mas nunca frio, uma galeria tanto no nome como na função. Ao sentar-se, sente-se imediatamente que o espaço foi concebido com o sentido das proporções. As cadeiras não estão dispostas aleatoriamente, mas sim com um objetivo acústico, garantindo a cada convidado uma parte equitativa do campo sonoro.

O sistema é intransigente. Os componentes de alta gama proporcionam amplitude e textura, ajustados à sala de forma a que nada se sobreponha. As gravações brasileiras desabrocham em cores, a percussão ressoa com o estalo da pele na pele do tambor e as vozes estendem-se amplamente pelo espaço. As faixas de jazz soam íntimas e ao vivo, a disco e o funk preenchem o ar sem se misturarem, e as texturas eletrónicas pairam com clareza. Em São Paulo, uma cidade construída sobre a densidade, isto parece um luxo: espaço no interior do som.

A programação tem uma perspetiva global, mas nunca é genérica. Há uma exploração aprofundada das tradições próprias do Brasil — MPB, samba, bossa nova, tropicalia —, mas em paralelo com o jazz americano, o afrobeat e a música eletrónica europeia. Os curadores sabem que a fidelidade não se resume a um único género, mas sim à atenção. Cada faixa parece ter sido escolhida pela forma como funciona na sala, e não apenas pelo nome que consta na capa. Os convidados aprendem rapidamente a deixar-se levar: podem não conhecer o disco, mas vão ouvi-lo na íntegra.

As bebidas são elegantes e sóbrias. Os cocktails são equilibrados, as bebidas espirituosas bem escolhidas e as cartas de vinhos selecionadas com o mesmo bom gosto que os discos. O serviço é descontraído, em sintonia com a noite. Nada o distrai do motivo pelo qual veio, que é deixar-se levar pela música.

A Formosa Hi-Fi é importante porque prova que São Paulo, apesar de todo o seu ritmo acelerado, também anseia pela quietude. Mostra que ouvir é uma forma de hospitalidade, que oferecer a alguém o prazer de um som bem reproduzido é tão importante como oferecer-lhe uma bebida. Ao voltar para o Centro, a cidade volta a rugir, mas ficamos com uma imagem residual — a memória do som preservado como se fosse arquitetura, da música que ganha a sua verdadeira forma.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

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