KEF Music Gallery, Londres — Onde a ambição do audiófilo se cruza com o devaneio tranquilo

KEF Music Gallery, Londres — Onde a ambição do audiófilo se cruza com o devaneio tranquilo

Por Rafi Mercer

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66–67 Newman Street, Fitzrovia, Londres W1T 3EQ, Reino Unido

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Imagine um lugar que mais se assemelha a uma capela do som do que a uma loja, onde cada material, cada acabamento e cada elemento de decoração está lá porque alguém se preocupou com a forma como a música deve ser ouvida. Esse lugar é a KEF Music Gallery, na Great Portland Street, em Londres. É o tipo de santuário subterrâneo em que se entra numa sexta-feira à noite tranquila e, inesperadamente, dá por si parado, porque o espaço, o sistema e o serviço o levaram a ouvir de verdade. A KEF não abriu esta galeria para ser mais um espaço de retalho — abriu-a para ser o tipo de lugar que importância ao som.

A KEF tem vindo a dedicar-se, há mais de seis décadas, à busca de um tipo específico de clareza. Fundada em Kent, em 1961, a empresa tem procurado, desde há muito, quebrar a barreira sonora entre a performance e o ouvinte. A sua Music Gallery é a forma que encontrou de dizer: eis como é a experiência de ouvir com a mais elevada fidelidade. Ao entrar, a atmosfera de showroom desaparece. Em vez disso, é recebido por um interior minimalista onde a luz natural, a madeira clara e as linhas simples parecem alinhadas com um ritmo diferente — um ritmo ditado pela música, não pelo comércio.

O espaço em si é generoso, mas contido. No andar de cima, há luz natural, iluminação suave e um trio de colunas Blade One Meta dispostas num arco suave. Estas maravilhas com câmara de corneta funcionam entre cerca de 70 Hz e mais de 40 kHz, transmitindo a música numa ampla largura de banda com detalhes nítidos. Os subwoofers encontram-se discretamente em nichos, reproduzindo os graves com peso e equilíbrio. A amplificação é feita por potência MOSFET de estado sólido — toda a calor e solidez, sem o calor das válvulas a roubar o protagonismo. Isto é precisão, não é desempenho.

No piso inferior, o ambiente transforma-se numa escuridão intimista. As colunas de chão Reference 5 Meta, de dimensões mais reduzidas, ocupam a sala; os assentos confortáveis convidam a demorar-se e a iluminação esbate-se até se tornar num suave tom âmbar. O som aqui é tátil — os graves pulsam sob a pele, as vozes florescem no ar e cada nota é moldada para ficar gravada na memória.

A filosofia da marca torna-se evidente quando se vê com que cuidado evita a desorganização. Sem cartazes nem etiquetas de promoção, nem o mais pequeno indício de pressão. Em vez disso, a galeria acolhe discretamente sessões em que os conjuntos tocam todos ao mesmo tempo — eventos de audição pagos, concertos de destaque, manhãs com artistas selecionados. Também organizam sessões de demonstração, pelo que qualquer pessoa pode reservar o espaço para uma audição pessoal (o que, para os entusiastas do som, é o equivalente a uma comunhão).

A série mensal SOUND da KEF dá vida à lógica da Listening Gallery. Um seletor ou convidado chega, apresenta uma mistura de uma hora e o resultado é publicado no site oficial e nas redes sociais da marca. Estas gravações não são apenas listas de reprodução; são listas de reprodução que servem de memórias de lugares. Pode ouvir em streaming o ambiente de «Nova Iorque às 18h» ou «Tokyo Unsigned Oddloft Acoustic» e sentir o espaço onde ainda não se encontra. Em Londres, essas sequências de R&B ou piano ambiente não são listas de faixas — são postais da Great Portland Street. É um gesto editorial disfarçado de áudio, que confere à galeria uma importância que vai muito além das suas quatro paredes.

A área do café, por sua vez, dedica-se ao ritual. Baristas experientes, café filtrado com cuidado, cada chávena apoiada com firmeza num pires, com um murmúrio suave de fundo. Da mesa baixa do café, a área de audição, com a sua luz acolhedora, fica suficientemente perto para que nos tornemos parte do seu ambiente, quer queiramos quer não. É a arquitetura a desempenhar o seu papel mais generoso — atrai-nos sem precisar de gritar.

Uma noite, vi alguém entrar para tomar um café e acabar por se envolver numa conversa de uma hora sobre o álbum «Time: The Donut of the Heart», de J Dilla. Tinha vindo para ver colunas e ficou para conhecer anos de história por trás do álbum. É isso, mais do que qualquer venda, que este lugar oferece. A música torna-se a conversa; a venda torna-se uma recomendação; a memória torna-se um motivo para voltar.

Depois, há o canal da KEF no YouTube. Não é uma enxurrada de textos publicitários — são cenas lentas e cinematográficas que criam uma estética em torno das nuances. Vê-se grandes planos dos altifalantes e ouve-se um lento floreio de piano com muitas tangentes. Os espectadores sentem que fazem parte de um ambiente, não apenas de um anúncio. Isso é a influência da marca reformulada. A sala de audição é física; o canal é uma presença análoga, e ambos tocam a mesma nota em diferentes partes do seu silêncio multimédia.

O mais assustador é que isto funciona. Se te deixar aqui num dia de semana, não vais ficar por muito tempo. Mas se te deixar aqui numa sexta-feira, com uma chávena na mão, vais perceber que o tempo parece ter parado. Vais notar que o som suavizou o ambiente, e por isso ficaste para ouvir mais uma música. Londres não tem falta de espaços animados; tem falta de espaços que respiram.

Para todos os exploradores da música — ou seja, a nossa comunidade —, a KEF Music Gallery é uma estrela que brilha sem precisar de rótulo. Quando as estrelas do Tracks & Tales forem lançadas, esta parece ser uma candidata a uma classificação de três estrelas: qualidade soberba, execução com intenção e uma atmosfera pela qual vale a pena viajar. Mas, por agora, observamos, ouvimos e lembramo-nos de que nem sempre foram os destinos que mais se destacaram — foram os lugares que sabiam ouvir que deixaram a sua marca.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da secção «Tracks & Tales», subscrever, ou Clique aqui para ler mais.

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