Neiro — A frequência tranquila de Berlim
Por Rafi Mercer
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O Neiro é um dos bares de música mais requintados de Neukölln; descubra mais no nosso guia de locais de música na Alemanha.
Nome do local: Neiro
Morada: Weserstrasse 189, 12045 Berlim, Alemanha
Site: neirobar.com
Instagram: @neirobarberlin
Telefone: Não divulgado publicamente
Perfil no Spotify: Não disponível
A Berlim nunca careceu de som. Desde os seus clubes de betão até às suas ruas repletas de conversas e improvisação, a cidade é um instrumento vivo. No entanto, no seio de toda essa intensidade, existe uma corrente mais tranquila, que valoriza o detalhe e a profundidade em detrimento da grandiosidade. O Neiro, em Neukölln, é a personificação dessa corrente. O seu nome, inspirado na palavra japonesa para «timbre», define o seu objetivo antes mesmo de a primeira nota ser tocada: este é um bar concebido para revelar a cor do som.
Ao entrar, deixa-se o barulho de Berlim à porta. O espaço é intimista, deliberadamente assim, com paredes escuras e madeira acolhedora que suavizam a agitação da rua. A luz é suave e dourada, atraindo a atenção não para o exterior, mas para o interior. Um longo balcão estende-se ao longo de um dos lados, organizado e sem pressa, com garrafas de saquê e uísque alinhadas como sinais de pontuação à espera da frase certa. As mesas são pequenas, dispostas de forma a incentivar tanto a escuta como a conversa.
O sistema é o coração de tudo isto. As colunas, construídas à medida, funcionam como peças de mobiliário por direito próprio, sem serem ostensivas, mas com uma presença inegável. Os gira-discos são ajustados com precisão e a amplificação é escolhida a pensar no calor e na clareza do som. Os discos são reproduzidos na íntegra, numa homenagem à tradição japonesa que inspirou a criação do bar. O efeito é envolvente, sem ser impositivo. No Neiro, a música não é um pano de fundo, é o próprio ambiente.
A programação é subtil, mas segura. Os clássicos do jazz cruzam-se com a música eletrónica contemporânea, e os DJ têm toda a liberdade para construir as noites com paciência. Numa noite, poderá dar por si imerso nas espirais de Alice Coltrane; noutra, deixado levar pelo ritmo da cena experimental de Berlim. Também se dá espaço ao silêncio, aquela pausa essencial entre as faixas, quando a sala parece suster a respiração em uníssono.
As bebidas são escolhidas com o mesmo cuidado. O saquê é uma especialidade da casa, servido com reverência, cuja precisão impecável se harmoniza com a clareza do som. Os whiskies japoneses figuram ao lado de uma seleção de vinhos naturais e cocktails artesanais. Aqui, nada é excessivamente complicado; tal como a música, as bebidas são selecionadas com vista ao equilíbrio.
A importância do Neiro reside na forma como transforma a cultura auditiva de Berlim. Esta é uma cidade conhecida pela sua grandiosidade: vastos armazéns, festas intermináveis, multidões em busca da euforia do volume alto. O Neiro oferece uma alternativa, lembrando a Berlim que a intimidade pode ser tão poderosa quanto a grandiosidade. Não se trata do «drop», do espetáculo ou da multidão. Trata-se de fidelidade, detalhe e presença.
Se ficar até tarde, a sensação de comunidade torna-se evidente. Os clientes entram num ritmo tranquilo, as conversas vão-se acalmando, os olhos fixos no disco que gira, os ombros a moverem-se subtilmente ao ritmo da música. A sala transforma-se num ouvido coletivo, sintonizado na mesma frequência. Quando finalmente sai, os sons de Neukölln parecem mais nítidos, como se a sua audição tivesse sido reiniciada. Esse é o dom do Neiro: recalibrar não só o ouvido, mas também a forma como habita a cidade à sua volta.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.