Oblicuo Hi-Fi Bar: Onde Barcelona encontra o seu ritmo no silêncio

Oblicuo Hi-Fi Bar: Onde Barcelona encontra o seu ritmo no silêncio

Por Rafi Mercer

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O Oblicuo Hi-Fi Bar é um dos espaços intimistas de audição de Gràcia — descubra mais no nosso guia de locais de música em Espanha.

Nome do local: Oblicuo Hi-Fi Bar
Morada: Carrer de la Riera de Sant Miquel 59, 08006 Barcelona
Instagram: @oblicuohifibar
Site: Oblicuo
Telefone: Não divulgado publicamente

Gràcia sempre esteve um pouco fora de sintonia com o resto de Barcelona. Outrora uma aldeia independente, ainda mantém aquele ar de autonomia — ruas estreitas que desafiam o traçado quadriculado do Eixample, varandas repletas de plantas, praças onde os vizinhos conversam muito depois da hora em que já deviam estar a dormir. Neste cenário surge um local onde o ritmo assume uma forma diferente: o Oblicuo Hi-Fi Bar, um espaço de audição discretamente aninhado na Carrer de la Riera de Sant Miquel, modesto à primeira vista, mas inconfundível assim que se entra.

O nome, Oblicuo, sugere um ângulo, um desvio, uma perspetiva ligeiramente deslocada do eixo principal. E é exatamente isso que oferece. Numa cidade que muitas vezes se deixa levar pelo volume — pelo espetáculo, pelas noites longas alimentadas por batidas incessantes —, o Oblicuo opta por outro caminho. Pede-nos não para gritarmos por cima da música, mas para nos deixarmos envolver por ela. É um bar construído com base na fidelidade, não na força.

Percebe-se isso assim que se entra pela porta. A sala é compacta, com pouca luz, mas repleta de calor. Os painéis de madeira suavizam o espaço, os livros e as capas de discos de vinil absorvem os ecos, enquanto um sistema de som cuidadosamente construído à mão ocupa o centro. As colunas não estão escondidas nos cantos; estão posicionadas de forma intencional, inclinadas para moldar o ar, e não apenas para o preencher. O efeito é imediato: o som não passa por cima de ti, envolve-te, como se entrasses numa piscina onde a água sobe ao teu encontro, na temperatura certa.

A inspiração é clara: esta é a homenagem de Barcelona aos «kissaten» de jazz japoneses, aqueles cafés das décadas de 1960 e 1970 onde se tocavam discos de jazz americanos importados em alta fidelidade para um público que ouvia em silêncio reverente. Mas o Oblicuo não é uma cópia. Tem o seu próprio ritmo, moldado pelo carácter de Gràcia e pela sensibilidade dos seus fundadores. A carta de vinhos privilegia os vinhos naturais, o saquê aposta na pureza e os cocktails no equilíbrio. É um local onde cada escolha, desde o líquido até à decoração, parece intencional.

A música aqui não é apenas um pano de fundo. Está em destaque, mas sem arrogância. Numa noite, poderá encontrar um DJ local a tirar discos raros de jazz espiritual de uma caixa; noutra noite, poderá ser funk profundo, afrobeat ou temas brasileiros que se desenrolam ao longo da noite. A programação não é previsível — e é precisamente essa a ideia. Vem-se ao Oblicuo não para confirmar o que já se sabe, mas para se lembrar de quanto mais há para ouvir.

A acústica é fundamental para esta experiência. Em espaços maiores, o som perde-se frequentemente, com os graves a abafar os detalhes e os agudos a ricochetearem nas paredes duras. Aqui, as proporções são à escala humana, e os materiais foram escolhidos tanto pelas suas propriedades sonoras como pela sua estética. As conversas continuam, mas num tom mais baixo, como se o próprio som tivesse recalibrado o espaço. Trata-se de ouvir como arquitetura: a música molda a geometria social, criando uma consciência partilhada que é rara num bar da cidade.

Passe algumas horas aqui e começará a reparar nos detalhes. A forma como a iluminação se torna mais acolhedora à medida que a noite avança, transformando as capas dos discos de vinil em ícones luminosos. A precisão dos funcionários do bar, que servem e agitam as bebidas com o mesmo ritmo calmo dos discos que giram nas proximidades. O público — estudantes de design, músicos, fãs de jazz mais velhos, casais jovens — uma mistura atraída não pela moda, mas pela curiosidade. É um retrato que parece natural em Gràcia: cosmopolita, mas com os pés no chão; elegante, mas sem pretensões.

O Instagram do bar é o seu diário público. As publicações anunciam os DJ convidados, novos cocktails e as novidades em vinil. Mas também transmite a atmosfera do local: a luz dourada, as mesas de mistura bem próximas umas das outras, o momento em que um disco parece parar o tempo para todos os presentes na sala. É através deste feed que o mundo exterior vislumbra o que quem está lá dentro já sabe: o Oblicuo não tem a ver com volume, mas sim com profundidade.

Sentar-se no Oblicuo é sentir o peso do silêncio de uma forma diferente. Não é ausência, mas sim presença — um enquadramento que permite que o som surja em toda a sua plenitude. Sai-se de lá com os ouvidos renovados, sintonizados com os detalhes, novamente atentos à riqueza que habita numa única nota quando lhe é dado espaço para respirar. Numa cidade construída em torno do espetáculo, o Oblicuo prova que as memórias mais duradouras provêm, muitas vezes, do que acontece quando as luzes se baixam, os discos giram e o mundo abranda para ouvir.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para saber mais.

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