Rag Time — O ritmo secreto de Chitose-Karasuyama
Por Rafi Mercer
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Nome do local: Rag Time
Morada: 1-30-10 Minamikarasuyama, Setagaya-ku, Tóquio 157-0062, Japão.
Site: https://ragtime1978.wixsite.com/jazz
Instagram: —
Telefone: —
Perfil no Spotify: —
O centro de Tóquio deslumbra com as luzes de néon, mas a verdadeira cultura musical da cidade esconde-se frequentemente nos subúrbios, onde o ritmo é mais lento e os espaços têm espaço para respirar. Chitose-Karasuyama, um bairro ao longo da Linha Keio, a oeste de Shinjuku, guarda um desses tesouros. O Rag Time está aqui desde o final da década de 1970, um «kissa» de jazz que ainda parece ancorado nessa época. Ao percorrer a sua rua tranquila, repara-se no pequeno letreiro e na porta que parece pertencer a qualquer café de bairro. No entanto, ao entrar, depara-se com algo completamente diferente: um espaço onde o som é cuidado há décadas, onde a audição se transformou num ritual.
A primeira impressão são as colunas. As antigas colunas JBL dominam o espaço, não como decoração, mas como instrumentos em funcionamento. Vivem há anos ao som do jazz, com os cones desgastados até à perfeição, os agudos suavizados e os graves mais densos e quentes. A coleção atrás do balcão conta com milhares de discos, na sua maioria de jazz, com uma predileção pelo hard bop, swing e cool — embora a mão do proprietário garanta que surpresas surjam com regularidade. Ao contrário da precisão curatorial dos bares de audição mais recentes, o Rag Time funciona com a descontração de um verdadeiro kissa. Os discos são escolhidos pela sensação que transmitem, não pela moda, e essa liberdade confere ao espaço uma textura humana.
O ambiente é tranquilo. À tarde, estudantes e moradores locais saboreiam café enquanto solos de saxofone ecoam pelas paredes. À noite, o uísque e a cerveja são servidos discretamente, sem alarde, como que para nos lembrar que o que importa aqui é ouvir. A iluminação mantém-se suave, o suficiente para ver as capas dos discos, mas não o suficiente para distrair. Repara-se como as pessoas se acomodam nos seus lugares de forma diferente do que no centro da cidade; recostam-se, fecham os olhos, deixam que os álbuns sejam tocados na íntegra. O bar já testemunhou quatro décadas disto, e as paredes parecem ter absorvido essa paciência.
O Rag Time é importante porque mostra a continuidade. Enquanto novos bares de música em Tóquio aperfeiçoam o conceito, transformando-o num estilo de vida, aqui sente-se as raízes — a ideia dos anos 70 de que a fidelidade sonora poderia fazer parte do quotidiano, de que as ruas dos subúrbios poderiam abrigar santuários do som. A sala pode não parecer grande coisa à primeira vista, mas ensina-nos o que significa ouvir: que o crepitar de um disco gasto, o eco de um trompete através de colunas vintage de madeira, o silêncio de um estranho a abanar a cabeça ao ritmo da música — tudo isso faz parte. Esta é a audição como um milagre comum, tornado extraordinário pelo cuidado com que foi preservado.
Ao voltar para a noite de Setagaya, percebe-se o paradoxo: numa cidade conhecida pelo ruído e pela reinvenção constante, algumas das experiências auditivas mais profundas acontecem aqui, numa sala modesta que mal mudou em quarenta anos. O Rag Time não é uma moda; é uma âncora. Para quem se interessa pela geometria do som, é uma das paragens indispensáveis de Tóquio.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.