Onde Dublin voltou a aprender a ouvir

Onde Dublin voltou a aprender a ouvir

Por Rafi Mercer

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O Big Romance é um dos bares com música mais bem selecionada de Dublin — descubra mais no nosso guia de locais de música na Irlanda.

Nome do local: The Big Romance
Morada: 75 Parnell Street, Dublin 1, Irlanda
Site: thebigromance.ie
Instagram: @thebigromancedublin
Telefone: +353 1 598 4385

Na primeira vez que se entra no The Big Romance, o barulho da Parnell Street parece desaparecer, como se uma pesada cortina de teatro se fechasse. Lá fora, o trânsito circula de forma caótica, as conversas espalham-se pelo ar, as luzes de néon disputam espaço com as lojas de kebab e as lojas de conveniência. Lá dentro, o ambiente muda. É mais silencioso, mais denso, como se o próprio espaço insistisse para que te concentrasses nele, em vez de apenas passares por ele. O The Big Romance é a grande lembrança de Dublin de que ouvir não é algo passivo. Aqui, cada nota tem o seu peso e cada disco pede a tua atenção.

O próprio nome já revela a intenção — inspirado no álbum de estreia de David Kitt, «The Big Romance» traz consigo uma memória da exploração sonora irlandesa, uma sensação de intimidade que não é nem grandiosa nem casual. Fala de ligação, de calor humano, daquilo mesmo que a música promete quando tocada através do suporte certo. E neste bar, o suporte certo é o vinil, reproduzido num sistema concebido não para impressionar, mas para captar os detalhes. O espaço revestido a painéis de madeira, pequeno para os padrões de uma discoteca, mas espaçoso para a escala de um recanto acolhedor de um pub, foi concebido com uma pergunta em mente: como é que se quer que o som se manifeste na sala?

O sistema é o coração da casa. Uma instalação audiófila concebida com cuidado, assente em colunas feitas à medida e componentes escolhidos com mais atenção do que muitos estabelecimentos dedicam aos seus ementas. Este não é um som que vem na tua direção; respira pelo espaço, vivo no ar como incenso. As baixas frequências assentam no chão sem se tornarem turvas; os pratos brilham no ar sem soarem estridentes. Há separação, sim, mas também calor — uma espécie de sensação tátil que nos faz inclinar-nos para a frente sem pensar. Se alguma vez puseste um disco a tocar em casa e reparaste como isso altera a geometria da tua sala de estar, o The Big Romance amplifica essa sensação, transformando todo o espaço numa câmara de audição.

Mas o que o distingue não é apenas o equipamento — é a intenção. Aqui, a música não é um pano de fundo para a conversa. É a própria conversa. As noites não têm como tema quem consegue gritar mais alto enquanto bebe uma caneca de cerveja, mas sim quem trouxe o LP certo para partilhar, quem encontrou a edição que pede para ser ouvida em volume alto, num sistema capaz de reproduzir cada um dos seus contornos. As suas sessões «Bring Your Own Vinyl» tornaram-se um ritual cultural — tanto colecionadores como ouvintes ocasionais trazem os seus tesouros para serem reproduzidos com a máxima fidelidade perante o público. O que poderia ser um ritual privado numa sala de estar torna-se, por uma noite, um ato coletivo de reverência.

A seleção musical transita entre géneros com facilidade. Numa noite, pode ouvir-se um disco de dub a tocar, seguido de música ambiente japonesa na noite seguinte e, depois, um DJ local a construir uma narrativa de jazz com influências do folk irlandês. A programação é cuidadosa sem ser pretensiosa — surpreende, ensina e entretém. E, acima de tudo, não cede a facilidades. Esta é música que se mantém interessante, quer conheça o artista ou não. Confia na intenção porque o bar conquistou essa confiança.

Fisicamente, a própria sala tem uma geometria que favorece a audição. Estreita na entrada, abre-se para uma sala comprida onde o sistema se apresenta com orgulho, mas sem ostentação. Os pavimentos de madeira absorvem e refletem o som de forma equilibrada; a altura do teto retém o som sem o sufocar. Não é nem uma catedral nem uma caverna. Em vez disso, é uma sala de estar ampliada na medida certa para transmitir uma sensação de convívio, mas não tão grande que os detalhes se percam. As mesas estão dispostas com espaço suficiente para manter a conversa íntima, mas nunca opressiva. A zona de audição é inconfundível — senta-se nela como se entrasse num círculo invisível de concentração.

As bebidas seguem a mesma filosofia: qualidade artesanal em vez de excesso. Cervejas locais são servidas a par de whiskies que merecem ser saboreados lentamente. Não há qualquer pretensão de espetáculo ou artifício; não há cocktails com cores de néon a disputar a atenção. Em vez disso, as bebidas tornam-se um acompanhamento para a experiência auditiva, tal como as notas da capa de um álbum se tornam um acompanhamento para o próprio álbum. Estão lá para sustentar o ambiente, em vez de distrair dele.

O Big Romance deve o seu sucesso à consistência. Muitos bares tentaram imitar o conceito de «bar para ouvir música» e falharam porque o trataram como uma moda passageira, um slogan de marketing. Aqui, as noites mantêm-se estáveis semana após semana. Quer se trate de uma sessão de quarta-feira em que cada um traz o seu próprio vinil ou de um DJ convidado ao fim de semana, o nível nunca desce. O sistema é mantido, o volume está bem ajustado, a programação é de confiança. Esta fiabilidade torna-o um marco cultural em Dublin — um lugar onde se pode voltar vezes sem conta e encontrar tudo tão bom como da última vez.

A palavra «romance», neste contexto, não tem a ver com sentimentalismo. Tem a ver com dedicação — o tipo de dedicação que os ouvintes dedicam à música, o tipo que os músicos dedicam à sua arte e o tipo que este bar dedica ao ato de ouvir. Se cresceu na Irlanda durante os anos difíceis em que as lojas de discos de vinil fecharam e os pubs se afogavam em conversas, entrar no The Big Romance parece uma revalidação: o som volta a ser importante.

Há também uma sensação de diálogo internacional em ação. O bar faz uma referência à tradição japonesa dos «kissaten», aos bares de música de Londres e Nova Iorque que têm florescido nos últimos anos, mas fá-lo com um sotaque irlandês. Os discos tocados não são apenas importados; estão misturados com a história local, com DJs e colecionadores de Dublin a darem o tom às noites. Isto não é imitação, mas sim interpretação. Tal como o jazz irlandês sempre teve a sua própria inflexão, o mesmo se passa com a abordagem sonora deste bar.

Em algumas noites, quando a multidão fica em silêncio e o disco toca aquela nota que sempre adoraste, dá para sentir a multidão a suspirar em uníssono. É nesse momento que percebes o que o The Big Romance realmente oferece. Não é só uma bebida, não é só um disco, mas um espaço onde o próprio ato de ouvir se torna a cultura.

E quando voltas para o caos da Parnell Street, a memória daquele som acompanha-te. A cidade parece mais nítida, o ruído menos opressivo. Levas contigo a forma da sala e a geometria do som. Dublin tem muitos pubs, mas apenas um bar que te ensina a ouvir de novo.


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