Onde o som ganha ousadia – Por dentro do Café OTO, em Dalston

Onde o som ganha ousadia – Por dentro do Café OTO, em Dalston

Por Rafi Mercer

Novo anúncio

Rua Ashwin, n.º 18–22, Dalston, Londres E8 3DL, Reino Unido.

Site

Telefone

É noite em Dalston, e nada transmite mais novidade do que uma antiga fábrica de tintas que vibra silenciosamente com possibilidades elétricas. Aproximas-te do número 18–22 da Ashwin Street, sob uma ampla janela que separa a noite do som. No interior, as cadeiras estão dispostas em forma de ferradura, em vez de numa fila — esse é o teu primeiro indício: isto não é uma atuação como espetáculo, é a música a encontrar-se cara a cara.

O Café OTO abriu em 2008, fundado por Hamish Dunbar e Keiko Yamamoto, inicialmente como um café onde se realizavam espetáculos ocasionais. Atualmente, é um dos locais mais aclamados para o free jazz, a música improvisada, experimental, noise, folk, eletrónica — e até mesmo o algorave e o psych-noise tuaregue — em Londres e não só.

O sistema de som do espaço está adaptado às dimensões da sala. Não há camarim, nem palco — apenas músicos, algumas cadeiras e uma parede que transmite o som como se fosse uma memória. A intimidade da sala é inigualável. É possível ouvir a vibração mais subtil de uma corda tocada com o arco, a respiração de um instrumento de sopro, o atrito de um violoncelo em repouso. O som não é projetado — é convidado a juntar-se a si na sala.

Grande parte da magia deve-se à editora OTOROKU, lançada em 2012. Esta editora interna grava atuações ao vivo — artistas como Roscoe Mitchell, Peter Brötzmann, Evan Parker, Thurston Moore e inúmeros músicos que ultrapassam as fronteiras são aqui captados, e essas gravações passam a fazer parte de uma série de lançamentos que sustentam a economia criativa do espaço. Não são apenas concertos — são marcos de referência arquivísticos, que ganham vida no momento e depois são levados para além das paredes em vinil, cassete e ficheiros digitais.

Em 2018, Thurston Moore, dos Sonic Youth, descreveu o Oto como um «ponto de encontro» para a música marginal. Mais recentemente, o compositor Daniel Blumberg dedicou algumas palavras de agradecimento aos «seus amigos do Café OTO» no seu discurso de aceitação do Óscar. Essa atenção inesperada pareceu-lhe adequada — o Oto é um ponto de encontro para relações, carreiras e inovações criativas que poderiam desaparecer sem ele.

No entanto, a sua sobrevivência não é garantida. Situado em Dalston, um bairro em rápida gentrificação, o Oto teve de introduzir modelos de adesão, recorrer a voluntários e contar com a convicção do seu público de que vale a pena apoiar a arte — e não apenas consumi-la.

A programação é impressionante pela confiança que demonstra. Os artistas realizam residências artísticas — a Sun Ra Arkestra atuou cinco noites seguidas. Evan Parker e David Toop podem organizar sessões de audição seguidas de debate. Já se viu artistas a tocar com cartões de crédito, o DJ Scotch Egg a criar sons com um Game Boy ou improvisadores de contralto a usar unhas postiças de encaixar como agulhas de gravação. Cada noite é um salto, cada artista um convite para ouvir de novo.

E as pessoas que aparecem estão ao mesmo tempo caladas e eletrizadas. Académicos a ler Greene, fanáticos por música a murmurar para si próprios as listas de músicas, jovens em transe por causa daquela aposta comum: perguntando-se: o que é que vamos ouvir esta noite?

Os programas de adesão e o grupo de voluntários estão repletos de pessoas que permaneceram e contribuíram para a sua construção — porque valia a pena construí-lo.

Quando sais, aquela noite ainda te ressoa nos ouvidos. Voltas para a rua e Dalston parece estranhamente luminosa — como se soubesse que agora faz parte de algo diferente. Estiveste num lugar onde ouvir não é apenas um ambiente — é arquitetura.

O Café OTO não se limita a oferecer música. Oferece-lhe a certeza de que o som ainda pode ser desestabilizador, poderoso e vivo — e que talvez seja isso mesmo de que o mundo dos ouvintes precisa.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da secção «Tracks & Tales», subscrever, ou Clique aqui para ler mais.

Voltar às histórias

Não é uma lista de reprodução.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. O Clube de Audição «Tracks & Tales» destina-se a quem compreende que ouvir não é apenas ruído de fundo, mas sim uma forma de estar presente.

INSCRIVA-SE AGORA