Onde Estocolmo voltou a aprender a ouvir

Onde Estocolmo voltou a aprender a ouvir

Por Rafi Mercer

Novo anúncio

O Hosoi é um dos bares de música mais requintados de Estocolmo — descubra mais no nossoguia de locais de música na Suécia.

Nome do local: Hosoi
Morada: Styckmästargatan 5, 121 62 Johanneshov, Estocolmo, Suécia
Site: hosoistockholm.com
Instagram: @hosoisthlm
Facebook: Hosoisthlm

A primeira vez que se entra no Hosoi, surge um instinto de sussurrar. Não por intimidação, mas porque o próprio ar parece estar afinado, como se alguém tivesse ajustado a frequência da sala antes de chegarmos. Lá fora, o Slakthusområdet — o antigo bairro dos matadouros a sul do centro de Estocolmo — ainda mantém o espírito industrial de décadas passadas. Fachadas de betão, um ritmo de armazéns fechados, letreiros de néon que remetem para outra época. No interior do Hosoi, a energia muda. Entras num espaço longo e minimalista, e a primeira coisa que te recebe não é um barman, nem um prato, mas a própria presença do som. Não exige atenção; simplesmente ocupa o ar de uma forma que insiste em ser notada.

A filosofia do Hosoi está presente no próprio nome. A palavra, de origem japonesa, traduz-se por «estreito» ou «esbelto» — mas, neste contexto, sugere algo mais profundo: um estreitamento do foco, uma simplificação até que reste apenas o essencial. Este não é um local onde a música seja mero pano de fundo. É o primeiro plano, a arquitetura, o quadro de inspiração, a própria razão pela qual estás aqui.

Compreender o Hosoi é percorrer a sua história. Tudo começou como uma discreta sala de audição no Hotel At Six, no centro de Estocolmo. Inaugurado em 2017, trouxe algo inesperado à cidade: uma interpretação escandinava do «kissaten» japonês — aqueles cafés intimistas onde os discos de jazz giravam em gira-discos pesados para um público que vinha para ouvir, e não para conversar. O Hosoi no At Six era um espaço escondido, quase um segredo, uma informação que circulava entre os curiosos e os mais dedicados. Tinha um tratamento acústico específico, uma estética minimalista e rapidamente atraiu um público fiel entre os habitantes de Estocolmo que queriam vivenciar a música com a seriedade do teatro.

Depois, surgiu a pandemia e, tal como tantos outros espaços culturais, o Hosoi apagou as luzes. Mas, ao contrário de alguns, não foi o fim definitivo. O projeto ressurgiu com uma nova morada e uma nova ambição. O Hosoi reabriu em Slakthusområdet, um bairro em transição, onde antigos matadouros abandonados estão a ser reinventados como palcos culturais, showrooms de design e discotecas. A mudança deu ao Hosoi espaço para expandir a sua identidade: não apenas um espaço para ouvir música, mas também um restaurante e bar, um ponto de encontro para comer, beber e dançar — sempre com a música como eixo central.

Entre hoje mesmo e verá essa expansão em ação. O espaço é despojado, com uma estrutura industrial suavizada por uma iluminação acolhedora e detalhes em madeira. A sobriedade escandinava alia-se ao minimalismo japonês. Há uma honestidade no design, a sensação de que nada é supérfluo. O foco está no sistema de som. A configuração de Hosoi — concebida em colaboração com engenheiros audiófilos — assenta na amplificação McIntosh, num conjunto de colunas de alta fidelidade cuidadosamente alinhadas com a sala e em gira-discos calibrados para reproduzir vinil com precisão. O sistema não é meramente decorativo. É o coração da sala.

A experiência auditiva na Hosoi não tem a ver com o volume, mas sim com a presença. Os graves não ressoam com um som surdo; ressoam. As notas agudas não são estridentes; brilham. A geometria do som aqui tem um caráter arquitetónico: as baixas frequências movem-se como alicerces, as médias sustentam a estrutura e as agudas entrelaçam-se pelo teto como vidro. Não se ouve apenas um disco; sente-se a forma como este está alojado.

A programação é outra faceta da sua identidade. Hosoi seleciona seletores e artistas com um olho para a narrativa — DJs que compreendem que uma noite pode desenrolar-se como um ensaio. Os géneros são variados, mas a intenção é consistente: trata-se de música escolhida para ser ouvida, para ser vivida por dentro. Não é invulgar que Hosoi receba um convidado que toque jazz profundo numa sexta-feira e outro que passe da música eletrónica ambiente ao dub num sábado. O que os une é a atenção à textura sonora, à dinâmica e à viagem.

Mas o Hosoi não é purista como alguns kissaten japoneses, onde o silêncio é imposto e a conversa desencorajada. Aqui, a filosofia é mais fluida. É bem-vindo a falar, a beber, a comer — mas também lhe é lembrado, de forma subtil, que o som não é secundário. Há um respeito pela música que se reflete no comportamento das pessoas no espaço. As vozes baixam-se. Os telemóveis ficam nos bolsos. As pessoas aproximam-se do som, em vez de se afastarem dele.

A oferta gastronómica e de bebidas prolonga esta filosofia. Os pratos são concebidos para partilhar, com sabores puros e equilibrados. Os cocktails são servidos em copos que transmitem uma sensação de peso, de intencionalidade, sem nunca serem ostensivos. Mesmo aqui, sente-se essa atenção. Tal como um copo pode alterar a forma como se saboreia o uísque — fazendo-nos abrandar, trazendo-nos de volta à realidade —, os pratos e as bebidas no Hosoi são concebidos para complementar o som. Comer torna-se parte do ritmo da noite, e não uma distração do mesmo.

A localização em Slakthusområdet não é aleatória. O bairro encontra-se num momento decisivo de reinvenção, passando de um passado utilitário para um futuro cultural. A Hosoi posiciona-se na vanguarda dessa evolução, um sinal do que é possível quando antigas estruturas são reimaginadas como espaços para novos tipos de comunidade. Nesse sentido, a Hosoi é simultaneamente local e global: enraizada na paisagem urbana em transformação de Estocolmo, mas ligada à tradição mais ampla da cultura da escuta que teve início no Japão do pós-guerra e se espalhou por Nova Iorque, Londres, Paris e muito mais.

Existe também uma vertente de festivais: o Hosoi tem organizado os seus próprios eventos de vários dias, reunindo seletores, atuações ao vivo e público num formato que estende a filosofia do bar ao ar livre. Não se trata de espetáculos de massa, mas sim de encontros, cuidadosamente dimensionados, onde a autenticidade da experiência é preservada. Num mundo em que os festivais procuram frequentemente o volume e o espetáculo, a abordagem do Hosoi é revigorante: intimidade em vez de grandiosidade, profundidade em vez de amplitude.

O que torna o Hosoi essencial é o facto de não tratar a experiência auditiva como nostalgia. Não se trata de um exercício de fetichização do vinil, nem de se agarrar a uma suposta era dourada imaginária dos cafés de jazz. É contemporâneo, vivo, em diálogo com o que o rodeia. Pode entrar numa quarta-feira e ouvir um DJ a misturar minimal house com rare groove. Pode voltar na sexta-feira e ouvir uma noite inteira de Coltrane em vinil em perfeitas condições. Ambas as experiências têm o seu lugar, porque ambas são cuidadosamente selecionadas com um propósito.

Aqui, ouvir é um ato de cuidado — desde os funcionários, que se posicionam como guardiões da experiência, passando pelos selecionadores que transportam caixas com determinação, até aos clientes que compreendem, por vezes inconscientemente, que este é um espaço onde o som tem dignidade. Esse é talvez o maior sucesso do Hosoi: não dá lições nem impõe nada. Simplesmente demonstra, através do design, da programação e da atmosfera, que a música pode ser o elemento central. E, ao fazê-lo, lembra às pessoas como voltar a ouvir.

Quando sais, o mundo lá fora parece mais barulhento. A rua, o trânsito, o barulho dos passos no betão — tudo parece, de repente, amplificado. É essa a marca de um verdadeiro espaço de audição: ele recalibra-te. O Hosoi não é apenas mais um bar. É um botão de reinício acústico no coração de Estocolmo, um lugar onde se mede a noite não pelas bebidas consumidas, mas pelos discos que ficam na memória.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui ou clique aqui para ler mais.

Voltar às histórias

Não é uma lista de reprodução.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. O Clube de Audição «Tracks & Tales» destina-se a quem compreende que ouvir não é apenas ruído de fundo, mas sim uma forma de estar presente.

INSCRIVA-SE AGORA