Blues & the Abstract Truth — A arquitetura silenciosa de uma primeira audição

Blues & the Abstract Truth — A arquitetura silenciosa de uma primeira audição

A obra-prima de Oliver Nelson, de 1961, e a razão pela qual continua a ser o ponto de partida ideal.

Por Rafi Mercer

Há um tipo específico de começo que não se anuncia.

Sem alarido. Sem a sensação de que algo importante está prestes a acontecer. Apenas um disco colocado num gira-discos, uma agulha a descer e uma sala que, em silêncio, se dispõe a ouvir.

Lembro-me bem dessa sensação. Nos primeiros tempos na Virgin, entregaram-me um catálogo que mais parecia um mapa de um lugar para onde ainda não tinha viajado do que um simples inventário. O jazz, em especial, tinha essa qualidade. Não era propriamente intimidante — mas sim vasto. Aberto. Cheio de portas que ainda não sabíamos como abrir.

E foi então que este disco surgiu.

Blues e a Verdade Abstrata.

Não é barulhento. Não é urgente. Mas, de alguma forma, é imediato e certo.

Os primeiros compassos de «Stolen Moments» não tentam convencer-te de nada. Simplesmente surgem — medidos, deliberados, pacientes. Há neles uma autoridade discreta, como se a música já soubesse que não precisa de provar o seu valor. Ou vais aceitá-la, ou não.

O que torna este disco notável não é apenas a execução — embora esta seja excecional —, mas a forma como tudo se encaixa. Oliver Nelson era, acima de tudo, um compositor. Isso percebe-se imediatamente. Cada frase tem um propósito. Cada entrada, cada pausa, cada crescendo parece ter sido cuidadosamente planeado, em vez de ter surgido da improvisação.

E, no entanto, nunca parece rígido.

O conjunto parece uma conversa entre vozes distintas, cada uma com a sua própria forma de ver o mundo. Freddie Hubbard transmite uma clareza que atravessa com precisão os arranjos, enquanto Eric Dolphy se afasta ligeiramente, explorando os limites do que a música poderá vir a ser. Ao piano, Bill Evans faz o que sempre fez com tanta naturalidade — criar espaço sem nunca o deixar vazio.

Ninguém domina. Ninguém desaparece.

Em vez disso, o álbum acaba por se revelar algo mais raro: equilíbrio.

É esse equilíbrio que torna esta primeira audição tão impactante. Não nos oprime com a sua complexidade, apesar de esta estar presente. Não se reduz à simplicidade, apesar de poder fazê-lo. Existe naquele espaço estreito e difícil em que a música se revela, ao mesmo tempo, acessível e profunda.

Podes acompanhá-la à superfície — a melodia, o ritmo, o balanço suave de tudo isto.

Ou pode sentar-se mais para trás.

Ouve como os metais se movem em conjunto, não como elementos individuais, mas como uma única forma em constante mudança. Repara em como a secção rítmica mantém tudo no seu lugar sem nunca chamar a atenção para si própria. Presta atenção à contenção — com que frequência a banda opta por não tocar e como essa ausência confere peso à música.

Essa é a verdadeira lição deste álbum.

Não é o que se joga, mas sim o que se omite.

Em muitos aspetos, é aqui que a Impulse! Records começa a revelar as suas cartas. Antes de a intensidade espiritual de Coltrane redefinir a identidade da editora, havia isto: a convicção de que a música podia ser simultaneamente inteligente e cativante. Que podia exigir algo ao ouvinte sem o afastar.

Essa convicção está presente em todo o álbum.

Está presente em «Hoe-Down», onde a estrutura é lúdica, mas nunca desconexa. Está presente em «Cascades», onde o arranjo parece estar constantemente a desenrolar-se, revelando novas formas a cada repetição. E está presente, discretamente, ao longo de todo o álbum — no tom, no ritmo, na sensação de que esta é uma música concebida não só para ser ouvida, mas para à qual se queira voltar.

Porque é isso que acontece.

Não se trata de terminar este álbum e seguir em frente.

Volta.

Não porque o exija, mas porque o permite.

De cada vez, algo pequeno revela-se. Uma frase que te escapou. Uma mudança de ritmo que não percebeste à primeira. Um sentimento que não estava bem claro, mas que agora se encaixa no seu lugar.

É por isso que este álbum é tão importante, para começar.

Há álbuns que exigem que nos elevemos ao seu nível. Desafiam-nos, confrontam-nos e insistem para que os aceitemos nos seus próprios termos.

Este faz algo muito mais generoso.

Acompanha-te onde quer que estejas — e depois, aos poucos, sem nunca o anunciar, leva-te para a frente.

Se quiser ouvir este disco no ambiente certo, Nova Iorque tem espaços criados exatamente para isso — bares e salas de audição onde o jazz desfruta do silêncio que merece. Ou, se a vontade o levar mais longe, o atlas mundial irá indicar-lhe um espaço em praticamente qualquer cidade do mundo.

E se pensares naquele primeiro momento — ali parado, com um catálogo nas mãos, sem saber bem por onde começar —, este é exatamente o tipo de disco que precisavas de encontrar.

Não é o mais barulhento. Não é o mais complexo.

Mas aquele que, discretamente, te ensina a ouvir.


Perguntas rápidas

Será este um bom primeiro álbum de jazz para começar? Sim — um dos melhores. Consegue equilibrar a acessibilidade com a profundidade, proporcionando algo de que se pode desfrutar imediatamente, ao mesmo tempo que recompensa uma audição mais atenta ao longo do tempo.

Em que devo concentrar-me ao ouvir? Começa por «Stolen Moments». Presta atenção ao espaço entre as notas, à forma como os metais se movem em conjunto e à forma como a secção rítmica acompanha sem se sobrepor.

Por que é que este álbum continua a ser importante hoje em dia? Porque representa uma forma de ouvir que não mudou — paciente, atenta e aberta. Num mundo acelerado, lembra-nos como abrandar o ritmo.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

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