Leftfield — Leftism (1995) — O som de perder o rumo

Leftfield — Leftism (1995) — O som de perder o rumo

Perder-nos era o que todos precisávamos.

Por Rafi Mercer

Houve uma fase da tua vida em que raramente sabias exatamente para onde te dirigias, mas sentias-te mais vivo precisamente por causa disso.

O álbum «Leftism», dos Leftfield, ainda transmite essa sensação. Não é só a juventude. Não é apenas a cultura das discotecas. É algo mais profundo — a sensação de movimento sem certezas. De desaparecer em noites sem uma estrutura definida e, de alguma forma, acabar por nos encontrar no meio daquela confusão.

Ainda hoje, quando ouço este disco, penso em estradas.

As luzes da autoestrada a refletir-se nas janelas molhadas. Parques industriais desconhecidos às quatro da manhã. Postos de abastecimento frios, depois de horas passadas em discotecas onde os graves tinham alterado o teu ritmo cardíaco. Viagens para lugares que mal conhecias. Viagens de regresso a casa, vindas de lugares de que já nem te lembras. Amigos a dormir no banco de trás. Condensação nos vidros. Fumo preso no ar gelado. Aquele estranho esgotamento emocional que surgia após a intensidade.

E talvez o que tenha feito com que aqueles anos parecessem tão marcantes tenha sido o facto de quase nada disso ter sobrevivido visualmente.

Sem telemóveis acima da multidão. Sem histórias publicadas antes mesmo de a noite ter terminado. Sem repetições intermináveis dos momentos depois disso. Experiências vividas inteiramente em tempo real, que depois se dissolviam na memória quase imediatamente. Guardavas-as dentro de ti. Em fragmentos. Em emoções. Em linhas de baixo.

O esquerdismo parece-se exatamente com esse mundo que está a desaparecer.

Lançado em 1995, o álbum surgiu numa altura em que a música eletrónica britânica começava a perceber-se de forma diferente. O acid house e a cultura rave já tinham explodido por todo o país, mas muitos discos de música eletrónica continuavam a funcionar principalmente como ferramentas para as pistas de dança. O «Leftism» parecia ir além disso. Imersivo. Arquitetónico. Um disco concebido não só para fazer dançar, mas para remodelar completamente a atmosfera à volta do ouvinte.

Essa distinção é importante.

Isso nota-se logo em «Release the Pressure». As influências do reggae e do dub são evidentes, mas, acima de tudo, sente-se paciência. Espaço. Peso. A linha de baixo não se limita a acompanhar a música — torna-se parte integrante do próprio espaço físico. Depois, «Afro-Left» expande-se para algo hipnótico e quase espiritual, enquanto «Melt» mergulha numa melancolia ambiente que, décadas mais tarde, continua a parecer surpreendentemente moderna.

Mas é «Original» que continua a ser o centro emocional do álbum.

Poucas linhas de baixo na música eletrónica britânica conseguiram captar o movimento desta forma. A faixa parece suspensa entre a euforia e a exaustão — não é o momento culminante da noite em si, mas sim aquela estranha descida que se segue, quando a realidade se torna ligeiramente fluida. Faróis a atravessar a escuridão. Ruas vazias ao amanhecer. A cidade a expirar lentamente, enquanto a pressão dos graves continua a avançar.

Mesmo agora, a produção soa extraordinária.

A música eletrónica moderna parece, muitas vezes, ter medo do silêncio. Tudo é comprimido, acelerado, intensificado. Os refrões surgem instantaneamente. Os drops chegam ainda mais depressa. É preciso captar a atenção antes que ela se desvie para outro lado. O «Leftism» pertence a uma filosofia sonora mais antiga — profundamente enraizada na cultura dos soundsystems do reggae, onde o baixo era físico, a tensão se desenvolvia lentamente e o próprio espaço se tornava rítmico. Londres sempre manteve essa tradição — caves de jazz, sistemas de dub, armazéns de raves que alimentaram algo que a cidade ainda hoje pratica nas suas salas de audição.

É por isso que o álbum continua a soar impressionante em colunas de boa qualidade.

Não é barulhento. É grande.

Neil Barnes e Paul Daley compreenderam que as frequências podiam comportar-se como arquitetura. Não se trata simplesmente de ouvir «Leftism». Movemo-nos no seu interior. Os atrasos dissolvem-se no ar circundante. Os ecos do dub criam uma perceção de profundidade. Os bombos chegam com uma intenção física. As faixas desenrolam-se gradualmente, em vez de exigirem constantemente uma reação. O álbum confia suficientemente no ouvinte para deixar que a atmosfera se desenvolva naturalmente. É, à sua maneira, um dos primeiros argumentos a favor de tudo aquilo que o movimento global dos «listening bars» tornou desde então concreto — espaços construídos precisamente em torno deste tipo de peso e paciência.

E talvez seja essa confiança que faz com que o disco tenha envelhecido tão bem.

Grande parte da música de dança de meados dos anos 90 parece agora presa à sua própria época. O «Leftism» conseguiu, de alguma forma, escapar a isso porque, para além da tecnologia e da cultura das discotecas, explorava, na verdade, as emoções humanas. A inquietação. A liberdade. O deslocamento. O desejo de desaparecer completamente no som. A busca por algo significativo sem compreender totalmente o que isso poderia ser.

Ao ouvir agora, anos mais tarde, percebo que o álbum nunca foi realmente sobre as discotecas em si. Era sobre tudo o que as rodeava. Os espaços intermédios. As viagens. O que se seguia. Aquela estranha abertura emocional que surgia quando os jovens escapavam temporariamente às regras e se aventuravam em algo improvisado.

É possível sentir a influência da Grã-Bretanha pós-rave ao longo de todo o disco. A influência multicultural dos systems. O cansaço misturado com a possibilidade. A tensão urbana. O movimento. Cidades como Bristol compreenderam isto instintivamente — construindo a sua cultura auditiva exatamente sobre os mesmos alicerces: o baixo como arquitetura, a contenção como intenção, a pista de dança como uma forma de atenção séria. Mas por baixo de tudo isso reside algo intemporal: a necessidade humana de voltar a sentir-se presente na própria existência.

E talvez seja por isso que álbuns como este continuam a ter tanta importância na cultura musical atual.

Porque a música nunca foi concebida para funcionar apenas como conteúdo. Era algo que nos transportava. Físico. Social. Uma força capaz de transformar o ambiente e de alterar a própria realidade emocional. Álbuns como o «Leftism» fazem-nos lembrar que, antigamente, ouvir música exigia uma presença total. Sem ecrãs secundários. Sem encenação. Sem documentação constante.

Apenas som, movimento, escuridão, conversa, incerteza e o próprio pulsar da vida.

Hoje em dia, já não idealizo tanto o caos daqueles anos. Parte disso foi destrutivo. Parte disso era insustentável. Mas compreendo por que razão essas memórias continuam a ser tão carregadas de emoção. Ninguém sabia exatamente para onde ia. No entanto, de alguma forma, essa incerteza fazia com que tudo parecesse mais vivo.

O esquerdismo ainda guarda essa sensação no seu seio.

E quando a linha de baixo de «Original» volta a ganhar força, algures no mais profundo do corpo recorda-se a sensação de avançar na escuridão sem um mapa, confiando que a noite nos levará a um lugar que vale a pena descobrir.


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