Life Time — Tony Williams (1965)
Tony Williams — Life Time (1964)
Há discos que parecem completos assim que a agulha toca o disco. A estrutura é clara. A intenção está definida. Em poucos segundos, percebe-se onde se está.
A Life Time não lhe oferece esse conforto.
Começa como algo em aberto — não incompleto, mas em movimento. Um álbum que parece ir-se definindo à medida que se desenrola, sem saber ao certo qual será a sua forma final, mas com a certeza de que não pode permanecer dentro dos limites que herdou. Não te está a ser apresentada uma ideia acabada. Estás a ser convidado a participar num processo.

Tony Williams tinha dezassete anos quando gravou este tema para a Blue Note Records, em agosto de 1964. Esse pormenor é importante, mas não da forma que se poderia esperar. Aqui não há qualquer hesitação, nem deferência para com a tradição. Em vez disso, há uma espécie de impulso para a frente — uma recusa em aceitar que o ritmo tenha de se comportar como sempre se comportou.
Neste álbum, o tempo não é medido. É negociado.
Em «Two Pieces of One: Red», o conjunto move-se como se estivesse a orbitar em torno de um centro invisível. Sam Rivers tece linhas que parecem mais exploratórias do que declarativas. Bobby Hutcherson deixa as notas pairar, esmorecer e dissolver-se antes de se poderem resolver em algo fixo. Por baixo e à volta deles, Williams reformula completamente o papel do baterista — não marcando o ritmo, mas sugerindo a sua possibilidade, retirando-o, reintroduzindo-o, como se o próprio tempo fosse algo fluido.
Começas a senti-lo, em vez de o seguir.
«Tomorrow Afternoon» aprofunda-se ainda mais nesse espaço. Parece menos uma composição e mais uma sala em que se entra no meio de uma conversa. Os sons surgem, sobrepõem-se, afastam-se. Fragmentos de interação surgem brevemente antes de darem lugar a outra coisa. Há momentos em que quase parece que o mundo exterior está a infiltrar-se — como se a fronteira entre ouvir e viver se tivesse esbatido.
E é aqui que o disco te transporta.
Deixas de ficar à espera que a música chegue ao fim. Começas a prestar atenção à forma como ela se desenvolve.
«Memória» oferece algo próximo da familiaridade — uma sugestão de estrutura, uma linha à qual quase se consegue agarrar — mas, mesmo aqui, recusa-se a assentar completamente. Permanece naquele espaço entre o saber e o não saber, onde o reconhecimento cintila, mas nunca chega a concretizar-se. Parece menos uma afirmação e mais o seu próprio eco.
Quando «Barb's Song to the Wizard» encerra o álbum, qualquer expectativa de convencionalismo já desapareceu discretamente. O que resta é a interação na sua forma mais pura — músicos a responderem uns aos outros em tempo real, sem hierarquia, sem papéis fixos, sem a segurança de uma estrutura pré-determinada. É desorientador em alguns momentos, mas é também profundamente humano. É possível ouvir as decisões a serem tomadas. É possível ouvir a incerteza. É possível ouvir o próprio ato de criação.
E, algures no meio disso tudo, algo faz clique.
«Life Time» não é um álbum sobre a chegada. É um álbum sobre o processo de se tornar.
Capta um momento em que o jazz não apresenta uma linguagem acabada, mas sim a está a remodelar ativamente — na sala, na gravação, com um público já a ouvir, mesmo que ainda não tenha palavras para descrever o que está a ouvir. Essa tensão — entre a formação e a compreensão — é o que confere ao disco a sua energia. Não pretende ser definitivo. Pretende ser honesto.
E, neste contexto, a honestidade parece ser sinónimo de franqueza.
Como um espaço deixado deliberadamente em aberto. Como um ritmo que se recusa a obedecer. Como músicos que confiam de que algo surgirá se permanecerem no processo durante tempo suficiente.
Em 1964, a Blue Note funcionava a um ritmo extraordinário. Wayne Shorter gravou *Speak No Evil* dois anos mais tarde e é possível ouvir o mesmo instinto — uma melodia construída a partir da sombra, uma estrutura pouco rígida — mas com algo mais estável no seu cerne. O álbum *Blue Train*, de Coltrane, tinha sido lançado sete anos antes, ainda enraizado na tradição que Williams estava agora a desmantelar discretamente. *Life Time* situa-se entre esses dois pólos: depois da certeza, antes da resolução.
Num catálogo tão rico como o da Blue Note, este álbum mantém-se um pouco à margem — não é tão acessível à primeira vista como os discos que o rodeiam, nem é reeditado com tanta frequência ou tão amplamente discutido. Mas essa distância faz parte do seu carácter. Continua a parecer algo com que nos deparamos por acaso, em vez de algo para o qual somos direcionados.
E quando o fazes, isso muda a forma como ouves.
Não só ao jazz, mas a tudo o que exija a tua atenção.
Porque o que «Life Time» acaba por revelar é o seguinte: a obra mais interessante raramente está concluída quando a descobrimos pela primeira vez. Ainda está a tomar forma. Ainda está a ajustar-se. Ainda está a tornar-se aquilo que é.
Só tens de estar disposto a aguentar isso durante tempo suficiente para ouvires isso a acontecer.
Perguntas rápidas
Será que «Life Time» é um disco típico da Blue Note? Não — situa-se à margem do catálogo, inclinando-se para a vanguarda. Afasta-se do ritmo fixo e da estrutura tradicional mais do que a maioria dos lançamentos da Blue Note da época.
Por que é que o papel de Tony Williams é aqui tão importante? Ele transforma o baterista de mero marcador do ritmo em arquiteto. A bateria define o rumo da música, em vez de se limitar a acompanhá-la.
Qual é a melhor forma de ouvir este álbum? Dá-lhe espaço. Os auscultadores ajudam. Não te concentres na melodia nem no ritmo — concentra-te na interação, na textura e na forma como a música evolui de momento a momento.
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