Jimmy Cliff — A luz que se espalhou pela música
Uma reflexão sobre o artista que ensinou o mundo a conciliar beleza, luta e alegria num só momento.
Por Rafi Mercer
Alguns artistas deixam-nos canções. Jimmy Cliff deixou-nos uma forma de encarar o mundo. Uma forma de escolher a esperança, não porque a vida fosse fácil, mas porque a esperança era um ato de rebeldia, um ato de fé, um ato de ritmo. A notícia do seu falecimento hoje não soa como uma manchete; soa como uma pausa — daquelas que se instalam entre dois acordes, em que a sala suspira e a memória se inclina para a frente.
Cliff era um daqueles raros artistas que transmitiam simultaneamente uma sensação de intimidade e de grandeza. A sua voz transmitia o calor de um amigo que se inclina para mais perto e a força de uma ilha inteira a falar através dele. Cantava com uma suavidade que nunca diluía a sua coragem. Escrevia com uma clareza que nunca dependia da raiva. Tinha o dom de mostrar que a alegria podia ser política, que o otimismo podia ser radical, que a melodia podia carregar todo o peso de um país e, mesmo assim, elevar-se.
Se alguma vez ouviste «Many Rivers to Cross» sozinho, a altas horas da noite, sabes bem qual é a sensação: a sensação de que a condição humana tinha sido descrita com honestidade, de que alguém tinha pousado suavemente a mão sobre a dor que sentias por dentro e dito, em voz baixa: «Eu compreendo.» A voz do Cliff tinha esse poder — não de resolver nada, mas de te dar estabilidade enquanto continuavas a caminhar.
E se alguma vez dançaste ao som de «You Can Get It If You Really Want», sentiste a energia oposta: o pulsar da possibilidade, o ímpeto irresistível de uma canção que se recusava a deixar o cinismo tomar conta da sala. O Cliff nunca precisou de gritar. Nunca precisou de se mostrar duro para ser acreditado. A convicção transparecia no tom, no timbre, na sinceridade espontânea de um cantor que acreditava que a música podia levar as pessoas a algo melhor.
O que me impressiona agora, ao pensar nele, é o quanto a sua arte se baseava na generosidade. Ele não escondia as emoções; oferecia-as. Não minimizava a verdade; ampliava-a. Deixou que a sua voz se tornasse uma ponte — de Kingston para o mundo, das dificuldades para a perseverança, da tristeza para a borda cintilante da alegria. E milhares de nós atravessámos essa ponte sem sequer nos apercebermos até onde ele nos estava a levar.
Jimmy Cliff tinha a rara capacidade de fazer com que a esperança soasse como uma experiência vivida, em vez de uma aspiração. A sua música não era ingénua; era resiliente. Não era escapista; era enraizada na realidade. Ele escrevia para a alma, mas nunca se esquecia do corpo — o balanço, o ritmo, o batimento cardíaco que liga um ouvinte ao outro.
Hoje, à medida que a sua luz se transforma em memória, parece-me certo ouvir os discos tal como foram concebidos para serem ouvidos: devagar, com intenção, deixando que aquela voz inconfundível encha o espaço com a sua suave insistência de que o mundo continua a ser belo, que as pessoas continuam a ser boas, que a luta e a doçura fazem ambas parte da mesma canção.
Jimmy Cliff não nos deu apenas música. Deu-nos coragem envolta em melodia.
E embora ele já tenha ido para além do alcance dos nossos ouvidos, o eco permanece — brilhante, constante, terno. O tipo de eco que perdura muito depois da última nota, lembrando-nos que algumas vozes nunca se desvanecem; continuam simplesmente a guiar-nos para a frente, um rio de cada vez.
Fica tranquilo, Jimmy. O mundo é mais bonito graças ao som que lhe ofereceste.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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