Cidade do México: O som da altitude

Cidade do México: O som da altitude

Por Rafi Mercer

A Cidade do México ouve de forma diferente porque se situa em altitude. A mais de dois mil metros acima do nível do mar, o ar é mais rarefeito, o ritmo mais lento, o som mais ressonante. Percorrer as suas ruas é sentir a história em camadas: alicerces astecas, fachadas coloniais, expansão modernista, tudo a pulsar de vida. E, em meio a tudo isto, a música une a cidade — mariachi nas praças, jazz em salas à luz de velas, batidas eletrónicas vindas dos telhados. No entanto, nos últimos anos, outra voz juntou-se a este coro: o bar de audição, um santuário mais tranquilo onde o vinil, o silêncio e o ambiente convergem.

Para compreender por que razão os bares de escuta fazem sentido aqui, é preciso sentir a intensidade da cidade. A Cidade do México é vasta, inquieta, nunca fica parada. O seu trânsito zumbe como uma percussão perpétua, os seus mercados fervilham de conversas, a sua vida noturna nunca dorme. No entanto, no meio desta densidade, os espaços de calma são muito apreciados. Os cafés sempre proporcionaram refúgio; as cantinas ofereciam um ritual muito antes dos bares modernos. O bar de escuta dá continuidade a essa tradição, apenas transferindo o ritual da conversa para o silêncio, do espetáculo para o som.

No interior, a dinâmica é familiar para quem conhece os kissa de Tóquio. A agulha desce, a conversa vai-se esmorecendo e um álbum desenrola-se na íntegra. Mas o ambiente é distintamente mexicano. As salas transmitem calor, madeira, luz de velas e hospitalidade. Há menos austeridade do que em Berlim, menos pressa vertical do que em Nova Iorque. Em vez disso, há uma generosidade sonora, uma sensação de que ouvir é um ato social, mesmo quando as vozes se acalmam. Faz-me lembrar Austin, onde a atuação e a audição fazem parte do mesmo continuum. A Cidade do México transmite uma sensação semelhante: um lugar onde a música vive em público, mas onde o silêncio ainda pode ser partilhado.

Aqui, o vinil prospera tanto como arquivo como fonte de descobertas. As lojas de discos em Roma e na Condesa têm em stock não só reedições da Blue Note e da Impulse, mas também tesouros do jazz latino, da cumbia, do bolero e do rock en español. Os colecionadores valorizam tanto as prensagens japonesas de Coltrane como as reedições locais de Agustín Lara. É esta mistura que torna a cidade fascinante: clássicos globais refletidos através do património local, a fidelidade importada a misturar-se com o ritmo indígena. Em Londres, o vinil tem um toque histórico; na Cidade do México, parece vivo, ainda ligado às pistas de dança e às praças.

O repertório nos seus bares de audição reflete essa hibrididade. Uma noite pode começar com *Kind of Blue*, de Miles Davis — o mesmo álbum que celebramos na prateleira de álbuns do nosso bar de audição —, antes de passar para uma gravação local de Pérez Prado, com os metais brilhantes e a percussão nítida. Noutra noite, podem combinar-se texturas ambientais com mezcal, provando que o silêncio e o ritual não têm de pertencer apenas ao jazz. A curadoria transmite uma sensação global, mas com raízes, como se a própria altitude insistisse em que o som tem de estar enraizado.

Há também o papel da bebida, e aqui o mezcal assume um papel central. O seu ritual de degustação lenta, fumado e elementar, combina naturalmente com a cultura pausada do disco. Já escrevemos anteriormente sobre a combinação entre o uísque e a audição, sobre como a bebida e o som se amplificam mutuamente. Na Cidade do México, o mezcal desempenha esse papel, unindo ritual e atmosfera, transformando uma noite de audição numa cerimónia.

O que mais me fascina é como, aqui, ouvir continua a ser uma experiência social, mesmo no silêncio. Em *Silence is a Luxury*, defendi que a quietude tem valor numa cultura de ruído. A Cidade do México é a prova disso. Quando um disco gira, a sala fica em silêncio, mas o sentimento de comunidade não desaparece. Os ouvintes trocam olhares, acenam com a cabeça uns aos outros e bebem juntos. É o silêncio como forma de ligação, não de isolamento.

Ao sair à rua depois de uma noite assim, a cidade volta a invadir-nos — o trânsito a avançar, os vendedores a chamar, os néons a piscar. Mas o teu ouvido está sintonizado de forma diferente. Percebes o ritmo dos passos sobre os paralelepípedos, a harmonia das vozes nos mercados, a síncopa da chuva nos telhados. O bar de audição recalibrou-te, deu-te uma forma de ouvir a cidade como se fosse música.

A Cidade do México tem o seu lugar no Atlas porque demonstra que a cultura da escuta não é apenas uma importação urbana, mas sim uma expressão natural. Tal como Tóquio aperfeiçoou o silêncio, Nova Iorque enfatizou a permanência e Berlim acentuou a austeridade, a Cidade do México traz generosidade. Combina património e futurismo, ruído e silêncio, o local e o global. Mostra-nos que a altitude não é apenas geografia, mas também escuta — ar mais rarefeito, som mais profundo, ritmo mais lento.

A cidade não se limita a acolher bares de música. Ela vive-os.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais.

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