O Dia em que Me Apresentaram o Jazz

O Dia em que Me Apresentaram o Jazz

Um escritório monótono em Uxbridge, um olhar por cima da secretária e o início de tudo.

Por Rafi Mercer

Ainda me lembro do nervosismo que senti ao entrar.

Uxbridge. Grande Londres. Não é propriamente o código postal mais glamoroso para o início de um sonho. Um edifício de escritórios monótono, daqueles que não revelam nada pelo exterior. Já estava na Virgin há algum tempo — o suficiente para conhecer a cultura da empresa, para compreender o que ela estava a construir e para sentir a sua atração. Mas isto era diferente. Esta era uma reunião importante.

Sentei-me.

Alguém olhou para cima.

E foi mais ou menos isso.

Pareces um comprador de jazz.

Não sei o que respondi. Algo, suponho. Mas o que me lembro é da sensação que se seguiu — aquela mistura peculiar de incredulidade e certeza silenciosa que surge quando algo se encaixa sem aviso prévio. Não tinha planeado isto. Não tinha ensaiado uma resposta para essa pergunta. Ninguém nos pergunta se parecemos com um comprador de jazz.

E, no entanto.

E assim, de repente, tinha o emprego dos meus sonhos.

Não porque o tivesse merecido através de anos de conhecimentos técnicos ou de estudos formais. Não porque tivesse apresentado um argumento perfeito a meu favor, sentado a uma mesa bem polida. Mas porque algo na forma como entrei — alguma qualidade no ar entre nós — sugeria que eu poderia compreender o que o jazz precisava de alguém que o vendesse.

É uma coisa estranha em que confiar. E uma coisa ainda mais estranha em que se estar certo.

Porque eu compreendi mesmo. Ou aprendi a compreender, rapidamente, daquela forma que só se aprende quando o que está em jogo é real e a responsabilidade é toda nossa.

O jazz não é um catálogo que se possa abordar com uma folha de cálculo. Não se submete a metas da mesma forma que outros géneros. Exige algo diferente — paciência, atenção, a vontade de dedicar tempo a discos que não se revelam de imediato. Os compradores que o fazem bem não se limitam a vender unidades. Estão a defender, repetidamente, que esta música merece ser ouvida. Que tem algo a dizer, se lhe dermos tempo para o dizer.

Para mim, essa discussão começou numa sala qualquer em Uxbridge.

E, na verdade, não parou mais desde então.

Porque é isso que acontece quando nos é entregue algo sem que o esperássemos totalmente. Ou nos adaptamos a isso, ou não. Não há meio-termo. Não há nenhum lugar confortável onde nos esconder se os resultados não forem os esperados, se o instinto se revelar errado, se aquilo que nos foi confiado desmoronar-se discretamente.

Não se desfez.

Em vez disso, algo tomou conta de mim.

Uma curiosidade genuína sobre o que fazia com que um disco se destacasse e outro desaparecesse. Sobre o motivo pelo qual certas salas de audição pareciam diferentes — por que razão a mesma música podia ser percebida de forma diferente, dependendo do espaço, da hora e do ambiente da sala. Sobre a relação entre o som e o lugar, para a qual ainda não tinha palavras, mas que conseguia sentir com clareza suficiente para a explorar.

Segui-o.

Durante anos, através de catálogos, conversas e salas que cheiravam a vinil e a algo ainda mais antigo. Através de cidades que encaravam a audição como algo sério — Nova Iorque, Tóquio, Lisboa — e de locais mais pequenos sobre os quais ainda não se tinha escrito, mas que guardavam a mesma devoção silenciosa.

Tudo isso remonta àquele escritório.

Aquela terça-feira ou quarta-feira qualquer, ou seja lá que dia fosse.

Aquele olhar por cima da secretária.

Pareces um comprador de jazz.

Ainda não sei bem o que é que eles viram. Mas passei muito tempo a tentar estar à altura disso.


Perguntas frequentes

Como é que o Rafi Mercer se iniciou na música? Através da Virgin Records — muito antes de assumir o cargo na área do jazz. O cargo de responsável pelas aquisições de jazz surgiu de forma inesperada, num escritório em Uxbridge, e marcou tudo o que se seguiu.

Qual é a ligação entre a Virgin Records e a Tracks & Tales? O instinto desenvolvido na Virgin — de que certos tipos de música merecem uma atenção séria e que certos espaços merecem acolhê-las — está presente em tudo aquilo em que a Tracks & Tales se baseia. Explore o guia dos bares de audição para ver onde essa filosofia nos leva.

O que faz de alguém um colecionador de jazz? Aparentemente, há algo na forma como se entra numa sala. Para além disso — paciência, curiosidade e a vontade de deixar a música falar por si antes de se decidir o que ela significa.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

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