A pausa antes do som — Ouvir no Dia de Ano Novo

A pausa antes do som — Ouvir no Dia de Ano Novo

Quando o ano ainda não começou a dar sinais de vida

Por Rafi Mercer

O Dia de Ano Novo sempre me pareceu diferente, embora nunca tenha conseguido explicar bem porquê. Não é mais silencioso, em sentido literal. Os carros continuam a passar, as chaleiras continuam a apitar, um rádio continua a zumbir algures do outro lado da parede. Mas o som chega com um pouco mais de espaço à sua volta, como se o mundo tivesse inspirado e ainda não tivesse decidido com que intensidade expirar.

Esta manhã, a música não me parecia algo para usar. Parecia algo ao lado do qual me sentar. Reparei no tempo que deixei a agulha suspensa antes de a deixar cair, na forma como a sala parecia esperar comigo. Hoje, ouvir a música tinha uma gravidade ténue — não pesada, apenas deliberada — como se tudo o que eu pudesse tocar estivesse a substituir outra coisa ainda em formação.

Há algo no primeiro dia do ano que faz com que o som se comporte menos como ruído de fundo e mais como sinal. Talvez seja porque o ruído narrativo habitual desapareceu. Sem a urgência da caixa de entrada, sem a insistência da agenda, sem ainda se sentir o ímpeto. Apenas uma pausa — e, nessa pausa, uma sensibilidade acrescida à textura, ao tom e ao decaimento. Este é o momento em que ouvir se assemelha mais a um ritual, quando deixa de ser entretenimento e se torna orientação.

É isto que muitas vezes considerei como ouvir como um ritual — não a escuta como consumo, mas como uma forma de te recolocares na sala, no teu próprio corpo, no tempo. Em dias como este, a música não avança. Abre-se para o exterior. As notas parecem prolongar-se mais, os silêncios ganham mais peso e até os discos mais familiares revelam facetas que nunca tinhas reparado antes.

Dei por mim a ouvir discos mais lentos do que o habitual, não porque quisesse tranquilidade, mas porque a música rápida me parecia prematura. As faixas mais animadas sugeriam chegada, movimento, decisão. Hoje parecia mais um limiar. O som que melhor se adequava a esse momento era aquele que sabia esperar — discos feitos por pessoas que não temiam o espaço, a contenção, o facto de deixar uma peça terminar antes de anunciar o que se segue.

Ouvir música no Dia de Ano Novo revela algo que muitas vezes esquecemos durante o resto do ano: que o som tem um ritmo que vai além do tempo musical. Tem uma sazonalidade emocional. Há música feita para cozinhas de verão, outra para comboios noturnos e outra ainda para quartos que estão a despertar para si próprios. Hoje, a música parecia menos interessada em contar histórias e mais interessada em manter a coesão do espaço.

O que mais me impressionou foi a forma tão diferente como o sistema se comportava. O mesmo gira-discos, as mesmas colunas, a mesma sala — e, no entanto, o som parecia ligeiramente alterado, como se o próprio ano fosse uma condição acústica. Os agudos pareciam mais frágeis, os graves mais reflexivos. Reparei na respiração antes da entrada das vozes, no zumbido ténue do sistema em repouso, na forma como a nota final de uma faixa não se apressava a ser seguida por outra.

É aqui que ouvir começa a assemelhar-se mais a um ato de criação do que a uma distração. Percebe-se que o que importa não é a lista de reprodução, nem o equipamento, nem mesmo o disco em si — é o espaço entre os momentos. A forma como o som ocupa uma sala e, depois, a abandona. A forma como o silêncio não é ausência, mas sim preparação. Esta é a geometria do som tornada visível — a forma como a música molda um espaço, não ao preenchê-lo, mas ao delinear os seus contornos.

O Dia de Ano Novo situa-se fora da lógica habitual da produtividade. Não se espera nada dele. E nessa ausência de exigências, ouvir volta a ser sincero. Não se ouve para acompanhar um estado de espírito ou para o melhorar. Ouve-se para descobrir onde se está. A música torna-se uma espécie de diagnóstico suave — não perguntando como te sentes, mas mostrando-te.

Mais para o final do ano, a forma de ouvir voltará a acelerar. Tornar-se-á portátil, fragmentada, entrelaçada com o movimento e as obrigações. Mas hoje é diferente. Hoje lembra-nos que o som não existe para acompanhar a vida — é a própria vida, audível por um breve instante. Uma forma de marcar o tempo sem o medir.

À tarde, essa pausa começará a chegar ao fim. As mensagens voltarão. Os planos começarão a tomar forma. O ano começará a afirmar-se. Mas, pelo menos durante algumas horas, existe este intervalo estranho e generoso em que ouvir é como estar à porta — ainda não dentro do que está para vir, nem totalmente fora do que já se foi.

É por isso que hoje soa diferente. Não porque a música tenha mudado, mas porque ainda não começaste a falar por cima dela.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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