O que acontece se continuares a voltar — O trabalho silencioso do regresso

O que acontece se continuares a voltar — O trabalho silencioso do regresso

Sobre os registos, os espaços e os rituais que só se revelam com o passar do tempo

Por Rafi Mercer

Há certos registos que não se revelam de uma só vez.

Pões a música a tocar, talvez por curiosidade, talvez porque alguém em quem confias a mencionou de passagem. A primeira audição passa sem grandes problemas. Reparas num momento aqui, numa textura ali. Nada de urgente. Nada que exija toda a tua atenção. E, no entanto, algo fica. Não é um refrão cativante, nem um refrão marcante — é algo mais discreto. Uma sensação que ainda não terminou de se expressar.

Então, volta lá.

Não porque tenhas de o fazer, mas porque algo dentro de ti te diz que talvez valha a pena.

Quando ouço o Fred falar nisso, percebo o que ele quer dizer.

E é aqui que começa a verdadeira escuta.

Fomos, em grande parte, educados a seguir em frente. A saltar. A experimentar. A consumir apenas o suficiente até que surja a próxima novidade. A música, tal como tudo o resto, torna-se uma superfície — algo por que passamos, em vez de nos aprofundarmos. Mas, de vez em quando, um álbum resiste a esse ritmo. Não compete pela tua atenção. Simplesmente espera.

Pauline Oliveros compreendeu isto melhor do que quase qualquer outra pessoa. A sua prática da «escuta profunda» — a ideia de que a atenção genuína ao som é uma disciplina, e não um ato passivo — não era uma teoria. Era uma forma de estar numa sala. O álbum que gravou numa cisterna abandonada no Estado de Washington contém mais de duas horas de som que não significa nada à primeira audição e tudo à quinta. Isso não é um acaso. É precisamente o objetivo.

Se deixares, a música começa a mudar.

A segunda audição é diferente. Começas a reconhecer o espaço entre as notas. Na terceira, percebes como uma faixa se funde com a seguinte, como o espaço parece mudar com o som. Na quarta ou quinta vez, algo subtil aconteceu — o álbum já não é algo que estás a ouvir, é algo em que estás imerso.

E eis como se sabe que se está realmente a ouvir.

Vais senti-lo. Não o vais pensar, nem analisar — vais senti-lo. Um espaço que se abre no teu peito, silencioso e específico. Uma memória que surge sem aviso — uma pessoa, um lugar, um quarto em que não pensavas há anos. Uma discoteca às 2 da manhã. Um amigo com quem perdeste o contacto. Um amor que não durou, mas que soava como este acorde específico, este ritmo específico, esta qualidade específica de luz num quarto há muito tempo. A música encontra aquilo que já estava dentro de ti, à espera de ser descoberto. Não vais à procura disso. É isso que chega. E quando chegar, vais saber. Não porque compreendas melhor o disco — mas porque o sentes mais próximo.

Esse é o pacto silencioso do regresso.

Porque o que acontece quando voltamos sempre a ouvir não é apenas o facto de compreendermos melhor a música. É que a música começa a compreender-nos. Certas passagens têm um impacto diferente consoante o dia, a luz, o fardo que carregamos. O que antes parecia distante começa a parecer preciso. Até mesmo pessoal.

Os 50 melhores álbuns para uma audição profunda partilham uma qualidade acima de todas as outras — oferecem espaço suficiente para que possas ir-te aprofundando neles. Não se esgotam logo ao primeiro contacto. Vão-se revelando. Lentamente. Pacientemente. Ao seu próprio ritmo. Miles Davis. Bill Evans. Ryo Fukui. Álbuns que recompensam mais o regresso do que a primeira audição.

O mesmo se aplica aos quartos.

O Spiritland, em Londres, não é um espaço que se compreenda à primeira visita. Chegas, ouves algo excelente e vais-te embora. Mas, na segunda vez, algo muda — reparas na precisão do sistema, na paciência dos seletores, na forma como um disco de jazz pode respirar durante doze minutos sem qualquer justificação. Na terceira visita, começas a senti-lo como um lugar, em vez de uma experiência. Essa transição — de visitante a frequentador assíduo — é o que os melhores espaços são concebidos para proporcionar.

O «Music for a While», em Nova Iorque, também faz isso. Luz fraca. Discos de vinil como espinha dorsal. Os lados tocam até ao fim. Os intervalos entre as faixas não são vistos como erros, mas sim como parte do ritmo da noite. É um espaço que faz com que o silêncio pareça útil — e essa qualidade específica só se torna evidente depois de lá ter voltado vezes suficientes para confiar nela.

O N'Between, em Chelsea, funciona segundo o mesmo princípio — na primeira vez que o ouves, sentes o disco mais do que o ouves. Volta lá e a sala começa a revelar a sua geometria.

Em muitos aspetos, este é o mesmo ritmo que está na base de «Tracks & Tales».

Ninguém chega aqui e compreende tudo de uma só vez. Uma página sobre a cidade leva a um local. Um local leva a um álbum. Um álbum abre uma porta para algo completamente diferente. Não foi concebido para a rapidez. Não foi feito para ser percorrido rapidamente. Pede algo diferente — não necessariamente mais tempo, mas sim mais presença.

E a presença, tal como a escuta, é algo que já não sabemos praticar.

Mas, se voltarmos vezes suficientes, algo começa a assentar.

Começas a perceber padrões. Não só na música, mas também em ti próprio. O tipo de sons que te atraem. A forma como certos espaços te retêm por mais tempo do que outros. A silenciosa constatação de que não estás apenas a encontrar locais para ouvir — estás a moldar uma forma de estar.

É por isso que voltar é importante.

Não por uma questão de repetição, mas pela profundidade que isso cria. Porque o primeiro encontro quase nunca é a história completa. É uma introdução, nada mais. O verdadeiro trabalho — a verdadeira recompensa — reside no que acontece a seguir.

Fica um pouco mais tempo do que tinhas planeado.

Reproduz o disco outra vez.

Volta a entrar na sala.

Porque, por vezes, a coisa mais importante que se pode fazer é resistir ao instinto de seguir em frente.

E basta regressar.

- Rafi


Perguntas frequentes

Porque é que alguns álbuns nos dão vontade de voltar a ouvi-los? Porque não revelam tudo de uma só vez. Os melhores discos — desde Miles Davis a Pauline Oliveros — criam espaço para a descoberta ao longo do tempo, revelando novos pormenores a cada nova audição. Contêm mais do que uma única audição consegue abranger.

Como é que se sabe quando se está realmente a ouvir? Sente-se. Um vazio no peito. Uma memória que surge sem aviso prévio — uma pessoa, um lugar, uma discoteca, uma perda, um amor. A música descobre algo em ti que já lá estava. Não se analisa. Simplesmente sabe-se, porque se sente mais perto do que se esperava.

O que muda quando voltamos a ouvir a mesma música? A nossa atenção intensifica-se, a nossa ligação emocional aprofunda-se e a música começa a parecer-nos mais pessoal do que genérica. A prensagem do vinil também é importante neste contexto — uma prensagem original ouvida num bom sistema, numa sala silenciosa, revela detalhes que raramente se percebem num primeiro contacto.

Quais são os bares de música que recompensam quem volta? Todos os melhores. O Spiritland em Londres, o Music for a While e o Bar Orai em Nova Iorque, o N'Between em Chelsea — espaços que se revelam gradualmente, ao longo de várias visitas, a quem volta com paciência.

O que é a «escuta profunda»? Uma prática desenvolvida pela compositora Pauline Oliveros — a ideia de que a atenção genuína ao som é uma disciplina que se pode aprender e que traz benefícios que vão muito além da música. O seu álbum de 1989 constitui o texto fundamental. O centro cultural do vinil «Tracks & Tales» explora esta prática de forma mais abrangente.

De que forma é que isto se relaciona com o «Tracks & Tales»? O «Tracks & Tales» assenta no mesmo princípio — não se trata de uma compreensão imediata, mas sim de uma descoberta em camadas, através do regresso, da exploração e da escuta atenta. 

Todos os meses, o The Listening Club reúne-se em todo o mundo.Inscreve-te aqui.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

Voltar às histórias

Não é uma lista de reprodução.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. O Clube de Audição «Tracks & Tales» destina-se a quem compreende que ouvir não é apenas ruído de fundo, mas sim uma forma de estar presente.

INSCRIVA-SE AGORA