Caixas e Conversas: a «Sala de Estar Sonora» da BBE Store em London Fields

Caixas e Conversas: a «Sala de Estar Sonora» da BBE Store em London Fields

Por Rafi Mercer

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A BBE Store é um dos espaços de audição com mais personalidade do East End — descubra mais no nosso guia de locais de música em Londres.

Nome do local: BBE Store
Morada: 15 Kingsland Road, Londres E2 8AA, Reino Unido
Site: bbemusic.com
Telefone: +44 20 7613 1740
Perfil no Spotify: https://open.spotify.com/user/bbemusicofficial?si=02b1b5eebae94259

Assim que se sai da Kingsland Road, a BBE Store atrai-nos com aquela mistura inconfundível de capas de discos de vinil, caixas de madeira e um ambiente acolhedor e despretensioso que mais parece uma sala de estar do que um espaço comercial. Chamar-lhe simplesmente «loja» é subestimá-la; trata-se de um centro cultural, o coração do East End, onde o vinil não é apenas vendido, mas vivido.

A BBE — Barely Breaking Even — funciona como editora há décadas, lançando discos que mergulham profundamente no funk, no soul, na disco, no hip-hop e no house. O seu catálogo é um mapa da cultura da música de dança underground e da música negra. A loja em London Fields é uma extensão dessa filosofia, não um espaço de exposição, mas um local onde os discos que eles próprios gravaram e aqueles que veneram são colocados em circulação da forma mais literal possível: ao serem tocados.

No interior, a disposição é uma lição de intimidade. Nada de arquitetura grandiosa, nada de distrações causadas por um design exagerado. Apenas filas de discos, gira-discos que não estão atrás de vidro, mas fazem parte do mobiliário, e um espaço de bar onde se pode sentar, saborear uma bebida e deixar que a música faça o seu efeito gradual. A loja funciona também como um bar de audição, acolhendo eventos onde os seletores exploram o catálogo antigo da BBE a par de importações raras. As atuações nunca são ostensivas. Não se destinam a dominar a sua noite como faria uma discoteca; destinam-se a sintonizá-lo novamente com os detalhes. Com o chiado antes da batida. Com o calor de uma secção de metais a que se dá espaço para respirar.

O que torna a BBE Store essencial para a cultura musical de Londres é a sua dupla identidade. Durante o dia, os caçadores de discos e colecionadores aparecem para vasculhar as prateleiras, conversar com os funcionários e trocar impressões sobre as edições. À noite, transforma-se num ponto de encontro comunitário, onde se servem bebidas, as luzes baixam e a audição assume plenamente o seu papel de ritual. Há um ritmo natural nisso tudo — a facilidade de relaxar, ouvir algo de que não sabias que precisavas e, depois, perguntar a alguém sobre isso. É essa a magia da BBE: a música como uma ponte, não apenas como pano de fundo.

A curadoria é intransigente, mas acolhedora. Não é um antro de guardiões, mas sim um parque de diversões para selecionadores. Uma reedição brasileira pode surgir a seguir a um disco raro de house de Detroit, seguido por um 45 de funk empoeirado. Nunca se sabe ao certo para que canto do mundo se vai ser levado, mas confia-se o suficiente no espaço para se deixar levar. Essa confiança é crucial, e a BBE conquistou-a ao ser, ao mesmo tempo, editora e curadora há tanto tempo.

Há também uma dimensão democrática neste espaço. Ao contrário dos bares audiófilos mais exclusivos, onde os sistemas são venerados quase religiosamente, o BBE mantém o seu equipamento acessível. O som é limpo, quente e autêntico, mas o ambiente não é de santuário, mas sim de um círculo social. As colunas estão ajustadas à sala, preenchendo-a com profundidade sem exigir silêncio. Pode-se conversar, pode-se recostar-se, pode-se deixar a música fluir em torno da conversa. Mas, de vez em quando, surge uma faixa que silencia a mesa, uma pausa coletiva enquanto todos se deixam levar pelo ritmo. É aí que se percebe que não se está apenas numa loja de discos ou num bar, mas num espaço concebido para a audição no seu sentido mais puro.

A BBE Store está profundamente enraizada na comunidade. Selos independentes, DJs, produtores e colecionadores gravitam em torno dela e, em qualquer noite, o ambiente pode parecer mais uma reunião de família do que um evento. Numa Londres onde o ritmo acelerado e o requinte muitas vezes tomam conta de tudo, a contribuição da BBE é a autenticidade serena. É um pouco mais crua, sim, mas é precisamente essa crueza que nos permite respirar aqui. Não é preciso chegar com um ar sofisticado; basta chegar com a mente aberta.

Na crescente constelação de bares de audição de Londres, a BBE Store ocupa um lugar especial: a ponte entre a tradição das lojas de discos e a nova vaga de santuários para audiófilos. É o tipo de lugar onde os colecionadores levam os seus filhos, onde os DJs, mesmo depois do turno, ainda por lá ficam para ouvir o que está a tocar, onde os turistas entram por acaso e saem com um disco que vai servir de banda sonora à sua viagem. Trata-se menos de exclusividade e mais de continuidade, garantindo que a rica tradição do vinil em Londres não só seja preservada, mas também mantida viva, noite após noite.

Para quem se preocupa com o futuro dos espaços de audição, a BBE Store é uma fonte de inspiração. Ela prova que não é preciso grandiosidade arquitetónica nem equipamentos que custam milhões de libras para criar um santuário sonoro. O que é preciso é de comunidade, curadoria e dedicação. A música fará o resto.

Lá fora, a cidade segue a seu ritmo frenético — os autocarros passam a rugir, as sirenes soam, os cocktails de Shoreditch tilintam. Dentro da BBE, o hi-hat marca o ritmo, a linha de baixo rula e, por um momento, o mundo funde-se no som. É isso que faz com que as pessoas continuem a voltar. Não são apenas os discos que compram, mas a sensação de que aqui, nesta pequena sala, ouvir ainda é importante.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.


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