«The Long Drift»: Num barco lento rumo a… e a arte de ouvir com paciência

«The Long Drift»: Num barco lento rumo a… e a arte de ouvir com paciência

Por Rafi Mercer

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«On a Slow Boat To…» é um dos «kissaten» de jazz menos conhecidos de Ochanomizu — descubra mais no nossoguia de locais musicais de Tóquio.

Detalhes do local:
Nome do local: On a Slow Boat To…
Morada: 3 Chome-23-5 Kanda Ogawamachi, Chiyoda, Tóquio 101-0052, Japão
Site: Não disponível
Telefone: Não disponível
Perfil no Spotify: Não disponível

Tóquio sempre foi uma cidade onde a música encontra o seu lugar. E em nenhum outro lugar isso é mais evidente do que em Ochanomizu, um bairro mais conhecido pelas suas lojas de guitarras, pela vida estudantil e pelas avenidas repletas de livrarias do que pela sua vida noturna. No entanto, discretamente escondida neste cenário, encontra-se uma porta identificada apenas pelo seu nome —On a Slow Boat To… — e, por trás dela, uma das salas de audição mais respeitadas da cidade.

O próprio nome diz-lhe tudo o que precisa de saber: lentidão, flutuação, uma viagem conduzida pelo ritmo e pelo tom. Entrar é como dar um passo para um recanto fora do tempo. O ar está silencioso. A iluminação é fraca. As paredes estão repletas de prateleiras carregadas de discos de vinil. No centro, um par de gira-discos vintage da TEAC alimentam amplificadores que, por sua vez, alimentam altifalantes Altec Lansing imponentes, o tipo de monitores de qualidade de estúdio que outrora definiram o som das gravações de jazz nas décadas de 1960 e 1970. Quando a primeira nota surge — um trompete abafado, uma caixa tocada com escovas, um acorde de piano que parece prolongar-se para além da sua duração — percebe-se que se está num espaço inteiramente dedicado à audição.

Aqui, a música não é um mero adorno. É o essencial. Existem regras, tanto explícitas como tácitas: falar em voz baixa, deixar o disco tocar, não interromper o fluxo. Os clientes obedecem não por obrigação, mas por respeito, porque quebrar a atmosfera seria desfazer o feitiço. Em muitos «kissaten» de Tóquio, o foco está na fidelidade, na reprodução cristalina dos detalhes. No «On a Slow Boat To…», a fidelidade anda de mãos dadas com a paciência. Deixa-se que os discos respirem. As faixas não são saltadas. O silêncio entre as canções é mantido intacto, como uma pausa entre frases.

A coleção em si é imensa, abrangendo a história do jazz em todas as suas formas. Há edições japonesas em perfeito estado de Coltrane, gravações raras ao vivo de Bill Evans, faixas menos conhecidas da ECM, obras obscuras da fusão e jazz japonês que nunca chegou aos ouvidos americanos. Mas os selecionadores aqui não estão interessados na novidade apenas pela novidade em si. Programam com uma narrativa, tecendo uma noite com o mesmo cuidado com que se enfia uma agulha. Uma noite pode começar com o distanciamento sereno de Chet Baker, passar pelas explorações modais de McCoy Tyner e culminar nas harmonias densas de Toshiko Akiyoshi. Cada transição parece merecida, inevitável.

Em termos acústicos, a sala é quase perfeita. As Altec Lansings não se limitam a reproduzir o som — elas habitam-no. É possível ouvir o roçar dos dedos nas cordas, a tensão de uma palheta, a respiração por trás de uma nota. Os graves estão presentes sem serem intrusivos, os médios são cheios e os agudos são nítidos sem serem estridentes. A própria sala contribui para esta clareza, com as suas proporções a absorverem o suficiente para evitar o eco, e as suas prateleiras e superfícies a difundirem o que, de outra forma, poderia ser avassalador. O resultado é um som que é simultaneamente envolvente e preciso, um som que se sente no peito tanto quanto se ouve nos ouvidos.

A hospitalidade é mínima, quase austera. Um menu composto por café, uísque e cerveja. Sem cocktails elaborados, sem petiscos rebuscados. O que se consome aqui é essencial, e as bebidas servem simplesmente para o ajudar a entrar no espírito do momento. Café para aguçar a concentração, uísque para abrandar o ritmo, cerveja para o ajudar a entrar no clima. Na sua simplicidade, lembram-lhe que o bar não existe para distrair, mas para criar o ambiente.

A consistência é a sua marca distintiva. Noite após noite, ano após ano, a qualidade mantém-se. O sistema é mantido com um cuidado obsessivo. Os registos são mantidos impecáveis. O ambiente é defendido, com delicadeza mas com firmeza, pela equipa. Não há qualquer sensação de artifício, nem qualquer tentativa de modernização ou de seguir tendências. «On a Slow Boat To…» é o que é, e é precisamente isso que o torna essencial.

Numa cidade repleta de sons, o dom deste bar é o silêncio — ou, melhor dizendo, a forma como o silêncio emoldura o som. O silêncio antes de a agulha tocar o disco. A quietude à medida que um solo se desenrola. A pausa no final de uma face, antes de o DJ levantar a mão para virar o disco. É nesses espaços que nos apercebemos do que é verdadeiramente ouvir: não se trata apenas de ouvir, mas de prestar atenção, de esperar, de honrar.

Para o visitante ocasional, pode parecer intimidante. As regras, o silêncio, a solenidade. Mas para quem ouve em busca de profundidade, para quem compreende que a música é mais do que um mero pano de fundo, é o paraíso. Sentar-se naquela sala com um disco a tocar é como ser levado — lentamente, pacientemente — por um rio que sempre conheceste, mas que nunca viste verdadeiramente.

Quando se volta a sair para Ochanomizu, a cidade parece mais barulhenta do que antes, as ruas mais luminosas, o trânsito mais agitado. No entanto, traz consigo uma sensação de calma, de ter viajado para algum lugar distante sem se ter movido de todo. E talvez seja isso que o nome do bar realmente promete: não um destino, mas o ato de deixar-se levar, ouvir como se fosse viajar, um barco lento para lugar nenhum e para todo o lado ao mesmo tempo.


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