Under the Counter: a sala de audição secreta do Soho para quem sabe ouvir com atenção

Under the Counter: a sala de audição secreta do Soho para quem sabe ouvir com atenção

Por Rafi Mercer

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O «Under the Counter» é um dos bares musicais mais conceituados de Londres — descubra mais no nosso guia de locais musicais de Londres.

Nome do local: Under the Counter
Morada: 12 Brewer Street, Soho, Londres W1F 0SB, Reino Unido
Site: https://www.thecounterlondon.com/under-the-counter
Telefone: +44 20 7287 4022

O Soho sempre viveu na tensão entre o barulho e a intimidade. A Brewer Street é uma daquelas ruas onde o vaivém de pessoas parece nunca parar, uma rua animada com néons, conversas e movimento a todas as horas. No entanto, escondido por trás de uma das suas fachadas mais discretas, encontra-se o Under the Counter, uma sala de audição que exige paciência numa zona de Londres mais conhecida pela sua agitação. No panorama mais alargado dos espaços musicais da cidade — desde a calma quase religiosa do Spiritland até à energia convivial do Brilliant Corners, em Dalston —, o Under the Counter parece ser a resposta discreta do Soho, a prova de que, no meio de um volume incansável, ainda há espaço para uma audição deliberada.

Ao atravessar a porta, o ruído da cidade desvanece-se mais depressa do que se esperaria. A iluminação é fraca, âmbar e suave, e a primeira coisa que se nota é a parede de discos de vinil atrás do balcão. Não como decoração, mas sim como uma biblioteca. As prateleiras estendem-se até ao teto, e todas as capas parecem gastas pelo uso, em vez de terem sido selecionadas para exibição. Não há dúvidas quanto ao objetivo deste lugar: a música é o cerne, não um mero acessório. O espaço não é vasto, assemelha-se mais a uma sala de estar virada do avesso, com os lugares dispostos de forma a que fiquemos de frente para as mesas de mistura e as colunas, em vez de ficarmos frente a frente. As conversas acontecem, mas fazem-no em torno do som, nunca por cima dele.

O sistema em si é discreto, mas imponente. Amplificadores japoneses vintage, colunas ajustadas manualmente à sala e gira-discos que parecem bem cuidados, com os braços a moverem-se como instrumentos de precisão. Aqui, os seletores são mais curadores do que DJs, escolhendo discos para moldar o ambiente sem o perturbar, conduzindo a noite desde o jazz espiritual profundo até ao ambiente excêntrico e ao dub que parece suspender os limites da sala. Ao contrário do Mad Cats, em Shoreditch, que prospera na imprevisibilidade lúdica, o Under the Counter assenta no controlo — arcos sonoros subtis concebidos para o levar mais para o fundo, em vez de o fazer girar de lado.

As bebidas refletem o ambiente. Os cocktails são cuidadosamente concebidos, criados para serem saboreados lentamente, em vez de bebidos de um só trago. Um whisky highball vibra como uma linha de baixo constante; um martini de saquê é fresco, límpido e preciso. O menu evita o excesso, oferecendo alguns pratos de influência japonesa, mas com um toque do Soho — frango karaage ao lado de ostras, legumes em conserva que chegam à mesa com um aspeto de arte abstrata. Nada se sobrepõe, tudo deixa espaço para ouvir.

Há um luxo peculiar em ter um lugar como este no coração do Soho. Basta sair à rua para se deparar com a agitada vida noturna — bares, discotecas, cabarés, restaurantes que se estendem pelas calçadas —, mas basta voltar para dentro para que o ritmo abrande. Faz-nos sentir como se tivéssemos entrado numa versão paralela do bairro, uma que existe por baixo da superfície, reservada para aqueles que valorizam o som não como pano de fundo, mas como protagonista. É esse contraste que dá ao Under the Counter o seu poder: não luta contra o caos do Soho, protege-nos dele.

O público é heterogéneo, à imagem do próprio Soho. Dirigentes do setor que terminam o turno e precisam de um lugar para recarregar baterias, casais à procura de uma alternativa a mais um bar de cocktails, ouvintes solitários que vêm com um caderno ou um copo de vinho para saborear em silêncio. Não há um único perfil demográfico que domine, apenas o fio condutor de pessoas que se importam o suficiente para se sentarem a ouvir música com toda a atenção. Isso cria uma atmosfera de respeito tácito, onde o silêncio não é constrangedor, mas partilhado, e onde um aumento repentino do volume faz com que todos levantem o olhar ao mesmo tempo.

A cultura musical de Londres tem sido frequentemente associada às zonas leste e sul — Dalston, Hackney, Peckham —, mas o Under the Counter marca firmemente a sua presença no West End. Mostra que, mesmo no Soho, onde o espetáculo há muito define o ritmo, há espaço para a intimidade. Faz parte de uma tradição que remonta aos antigos porões de jazz da cidade, mas com uma sensibilidade moderna, sendo as noites guiadas pela precisão de um audiófilo. O próprio nome é um aceno cúmplice — algo que só se vê se soubermos onde procurar, um sussurro num bairro que, normalmente, grita.

Ao sair da sala, a agitação da cidade volta a invadir-nos — passos, buzinas, risos, trânsito —, mas o ouvido guarda a memória da paciência. Durante uma ou duas horas, aprendemos a ouvir de novo, a redescobrir o prazer dos pormenores, a perceber o silêncio como parte do conjunto. No Soho, de todos os lugares, isso parece quase radical.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.


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