Bares de música de Vancouver — Silêncio, vinil e os espaços criados pela Costa do Pacífico
Numa cidade entre as montanhas e o oceano, a música segue o seu ritmo.
Por Rafi Mercer
Há um certo tipo de tranquilidade em Vancouver que não se nota à primeira vista. Encontra-se entre as coisas — entre as montanhas e o oceano, entre o ritmo da cidade e a quietude que a rodeia. Sente-se isso ao passear por Gastown ao anoitecer, onde a luz se suaviza sobre os tijolos e os paralelepípedos, ou ao ficar junto à English Bay, à medida que o dia dá lugar a um ritmo mais lento. Vancouver não se apressa a revelar-se. Deixa-nos chegar ao nosso próprio ritmo.
Esse ritmo reflete-se na forma como a cidade ouve.

Este não é um lugar definido por um único som. Não há uma identidade fixa que se possa apontar e dizer: «Isto é Vancouver». Em vez disso, trata-se de uma sobreposição de camadas. Uma mistura subtil moldada pela geografia, pela cultura e pela qualidade particular da luz que surge quando uma cidade está rodeada por montanhas e se abre para o mar. A música aqui parece menos uma afirmação e mais uma companhia. Sempre me fez lembrar das cidades do «Tracks & Tales» que transportam a sua cultura discretamente — Oslo, Reykjavik, Fukuoka — locais onde a cultura de ouvir música está profundamente enraizada precisamente porque nunca foi exibida.
Sempre fez sentido para mim, a par de álbuns que compreendem o clima e o espaço. O álbum «Music Has the Right to Children», dos Boards of Canada — aquela deriva nebulosa e nostálgica de fita e sintetizador — pertence à mentalidade da costa do Pacífico, mesmo que tenha sido gravado noutro local. «Geogaddi» vai ainda mais longe: mais fundo na textura, naquela inquietação silenciosa que habita logo por baixo do calor. Ambos recompensam o tipo de audição para o qual Vancouver parece ter sido feita.
É por isso que, aqui, a escuta tende a ocorrer de formas mais íntimas e pessoais.
Nem sempre em salas concebidas especificamente para o efeito, mas em locais onde a atenção se concentra naturalmente. Espaços onde a música não entra em conflito com o ambiente, e o ambiente não entra em conflito com a música. Onde o sistema é bem pensado, a seleção é importante e as pessoas presentes compreendem — mesmo que não o descrevam desta forma — que está a acontecer algo pelo qual vale a pena ficar. É uma sensibilidade que se encontra em Tóquio e em Quioto, na cultura «kissa» que deu forma aos bares de audição — a ideia de que uma sala pode acolher a música da mesma forma que uma moldura acolhe um quadro, e que isso é suficiente.
No Frankie's Jazz Club, na Seymour Street, essa perceção é partilhada. Um espaço concebido em torno da atuação ao vivo, onde o som tem peso e o público se inclina para a frente. O Narrow Lounge, na Main Street, aposta na iluminação suave e na proximidade — as seleções de vinil conduzem a noite sem anúncios, sendo a sequência musical a fazer o que as palavras não conseguem. Abaixo do nível da rua, na Davie Street, o Guilt & Co oferece algo mais dinâmico: um espaço na cave onde atuações ao vivo e noites de DJ alteram a energia sem perder a sensação de imersão. A linha entre ouvir e dançar esbate-se, e o espaço move-se com ela.
Depois, há o Lala — um bar subterrâneo dedicado à audição de discos de vinil, situado por baixo do restaurante June, na Keefer Street, inaugurado em 2025. Uma entrada discreta conduz-nos para o piso inferior, afastando-nos da rua, para um espaço que nos faz sentir acolhidos desde o momento em que chegamos. Esta é a sala que sinaliza uma mudança na relação de Vancouver com o som. Não é algo ostensivo. Não é algo declarativo. Apenas, de forma discreta, seriamente empenhado na própria experiência de escuta. É, à semelhança dos melhores espaços desta lista, um local que exige algo de si — e recompensa o esforço.
É essa a verdadeira essência desta cidade.
Vancouver ainda não tem uma cultura de bares dedicados à música tão definida como a de Tóquio, nem a história rica que se sente ao entrar num espaço em Nova Iorque ou em Osaka. Mas os sinais estão lá — no cuidado dedicado aos sistemas de som, na presença crescente do vinil, no entendimento tácito de que a música pode moldar um espaço se lhe dermos espaço para o fazer.
Isso ainda não é uma cena.
Isso é uma base.
E as bases, com tempo e a devida atenção, tendem a manter-se sólidas.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.
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