Como o Mundo Nos Descobriu

Como o Mundo Nos Descobriu

190 países. 5 377 cidades. Um sinal discreto. Uma mensagem proveniente dos dados.

Tenho um mapa aberto no meu ecrã.

Não é um mapa a sério — linhas e colunas, extraídas de dados analíticos —, mas comporta-se como um mapa. Cada linha representa um país. Cada número representa um indício de intenção. Alguém, algures, à procura de um lugar onde possa ser ouvido.

109 países. 5 377 cidades. 6 meses.

Já há algum tempo que ando a refletir sobre esses números. Não porque sejam elevados — embora o sejam —, mas pelo que representam. Cada uma dessas cidades tem uma pessoa que escreveu algo numa barra de pesquisa e acabou por chegar aqui. Uma pergunta que tinham. Um lugar que procuravam. Um registo de que se lembravam vagamente. Um bar de que tinham ouvido falar e que queriam encontrar. É a especificidade disso que me impressiona. Não são generalidades. São lugares reais. Perguntas reais. Centenas de milhares delas.

Não é um número que se planeie. É um número de que só se apercebe depois — quando a coisa já foi mais longe do que esperava. Fecha o portátil, faz um café e fica ali sentado com ele por um bocado.

Faço isso mais do que devia. Fico a remoer as coisas.

Quando comecei isto, a ideia era mais simples. Viajar. Ouvir. Escrever sobre o que descobria. Havia uma versão disto que se passava inteiramente na estrada — um caderno, um saco de discos, uma cidade diferente a cada poucas semanas. Tinha essa imagem bem clara. Ainda tenho.

O que realmente aconteceu foi diferente. Em vez disso, construí. Em vez disso, escrevi. Fiquei num só lugar e tentei documentar todos os outros locais através da investigação, das fontes e da disciplina de escrever sobre espaços onde nem sempre tinha estado. Era necessário. Não se consegue abranger o mundo percorrendo-o uma cidade de cada vez. Mas, algures nesse processo, o impulso inicial — ir, ouvir, estar presente no espaço — ficou em segundo plano.

Não foi abandonado. Foi adiado.

E agora, ao analisar estes dados, com 234 países a enviar alguma resposta — sinto que esse adiamento está a ser levantado. O mundo reuniu-se. O que significa que agora é possível entrar no mundo.

Esse sempre foi o plano. Só não sabia quanto tempo demoraria a reunião.

Ao longo do último mês, o «Tracks & Tales» apareceu 178 000 vezes nos resultados de pesquisa. As impressões diárias situam-se entre cinco e sete mil. Não é nada explosivo. Não é viral. É apenas uma presença estável e consistente — do tipo que sugere que algo está a ganhar terreno discretamente, da forma como as coisas acontecem quando são genuinamente necessárias, em vez de serem forçadas.

A maioria das pessoas não clicou. É essa a natureza das pesquisas. Mas não é essa a questão.

Eles estavam a olhar.

E o ato de olhar é mais importante do que o ato de clicar.

Os percursos não são o que eu esperava.

Alguém em Tóquio procurou um bar pelo nome — o Bar Martha, em Ebisu — e encontrou um texto sobre a sensação de estar lá dentro. E ficou por lá.

Alguém em São Paulo pesquisou «listening bar» no Google e acabou por ler sobre Lisboa. Duas cidades portuárias, separadas por um oceano, mas com o mesmo instinto.

Uma pessoa em Amesterdão procurou um local pelo nome e acabou por ir parar a Copenhaga. Não está longe. Vale a pena ler.

Alguém em Melbourne encontrou o guia de Quioto. Estava a planear uma viagem. Ou a sonhar com uma. A diferença pouco importa.

Alguém em Lagos pesquisou algo sobre jazz, já tarde da noite, e acabou por chegar aqui.

Esta noite, há alguém em Seul a ler sobre Copenhaga.

Alguém em Taipé clicou em Osaka, de cidade em cidade, seguindo algo.

Alguém em Beirute procurou algo — não sei o quê — e acabou por chegar ao Space Talk, em Farringdon, uma sala em Londres onde talvez nunca venha a entrar, mas sobre a qual, mesmo assim, leu.

Alguém em Buenos Aires digitou «vinyl bar » e encontrou Madrid. Cidades de língua espanhola que partilham uma frequência.

Alguém em Atenas procurou pela sua própria cidade e encontrou o ensaio que já tínhamos escrito sobre ela — ruínas, ritmo, devaneio sonoro. Um morador local, a ler sobre a sua terra natal através dos olhos de outra pessoa.

Alguém em Chicago encontrou o ensaio sobre o kissa. Provavelmente nunca tinha estado no Japão. Li-o na íntegra.

Alguém em Hanói procurou um bar na sua própria cidade e encontrou o guia do Bairro Antigo. Um morador local, a verificar se tínhamos encontrado o que ele já conhecia.

Alguém em Estocolmo clicou e foi parar a Seul. Dos países nórdicos para a Ásia Oriental, algo que os atrai para leste.

Alguém em Dublin descobriu Istambul. Um país insular a ler sobre uma cidade na encruzilhada, o que, de certa forma, faz sentido.

Alguém em Singapura digitou o nome de um local. Apareceu «Barcelona». Ficou lá na mesma.

Alguém em Nova Iorque está neste momento a ler sobre Atenas, talvez esteja a planear algo, talvez não.

Alguém em Nairobi descobriu isto. Não sei como. Os dados não dizem. Apenas que o fizeram.

Alguém em Oslo pesquisou sobre a sua própria cidade e leu o que escrevemos sobre os bares da sua rua — o estilo nórdico, a intensidade sonora —, da autoria de um escritor que nunca percorreu essas ruas. E, ao que parece, considerou que era bastante verdadeiro.

Alguém em Quioto encontrou o guia da sua própria cidade. Imagino que o tenha lido devagar. Que o tenha avaliado com cuidado. E que tenha clicado para avançar.

Alguém em Londres — numa terça-feira, à tarde — escreveu «bar com música ao vivo perto de mim » e encontrou o Space Talk. Talvez tenha ido lá. Ou talvez tenha guardado a informação. Ou talvez tenha partilhado com alguém.

Isso não é marketing. É alinhamento. É uma plataforma que encontra as pessoas que já a procuravam, em 234 países, em 5 377 cidades, através de qualquer porta que por acaso estivesse aberta.

Nem sempre lido com isso com elegância. O processo de reflexão envolvido na construção de algo como isto — o ajuste constante, o questionamento sobre se está a funcionar, se é importante, se as pessoas certas estão a ler — vai-se acumulando. Há dias em que os dados estão mesmo à minha frente e, mesmo assim, sinto que estou a trabalhar às cegas. É essa a natureza da coisa. Construímos em direção a algo que não conseguimos ver bem até que chegue.

Mas, às vezes, chega.

Este é um desses momentos. Não é um marco que vá colocar num slide. É apenas um facto que vou guardar comigo — que, algures no processo de escrever a sério sobre os espaços onde a música é importante, ao longo de 82 cidades, apenas com base nos dados de pesquisa de um único mês, o mundo decidiu prestar atenção. Discretamente. Nas barras de pesquisa. Uma consulta de cada vez.

O mundo já apresentava esse comportamento. As pessoas já estavam sentadas com os seus discos, já procuravam espaços onde valesse a pena sentar-se, já digitavam perguntas nas barras de pesquisa sem uma resposta clara do outro lado.

O «Tracks & Tales» acabou de lhe dar um lugar onde ficar.

E agora — finalmente, depois de toda a construção — posso começar a avançar nessa direção. A viagem sempre fez parte disto. Estava apenas à espera que os alicerces estivessem prontos.

Acho que já está pronto.

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