Bares de audição em Amesterdão — O limite do som e o peso do silêncio — Guia Tracks & Tales

Uma cidade de zumbido, neblina e do ritmo lento que se esconde por baixo de tudo isso.

Por Rafi Mercer

Amesterdão nunca dorme realmente — ela respira. A cidade é todo um sopro e um zumbido; as bicicletas deslizam como pincéis pelas ruas que parecem telas, os elétricos sibilam ao passar pelas poças, as linhas de baixo escapam pelas portas das caves. Até o seu silêncio é rítmico, como se, algures por baixo dos paralelepípedos, um disco estivesse a girar lentamente na escuridão.

Passei anos aqui, entre a época da Virgin e o delírio das dot-com — anos em que tudo parecia mais barulhento do que o necessário. Amesterdão era o sítio onde se ia para aumentar o volume, para perseguir o ritmo até este se esbater na memória. Mas o que é estranho na busca pelo ruído é que ela nos ensina o que é realmente o silêncio.

Há um lado oculto nesta cidade, mas não daqueles que chocam — é mais do tipo que nos atrai. Os bares de jazz que ficam abertos até tarde, as caves repletas de discos de vinil, os cafés escondidos onde o tempo parece recuar no tempo. Entras e é como se alguém tivesse baixado as luzes do mundo inteiro. O som não se ouve apenas; é inalado. Os metais ecoam nas paredes de azulejo, a linha de baixo parece um batimento cardíaco e o ar tem um leve sabor a pó de vinil e café. É inebriante — não o tipo de embriaguez que te desarma, mas aquela que te revela.

Os bares de escuta de Amesterdão situam-se algures entre a discoteca e o confessionário. Não se tratam de uma fuga; tratam-se de uma sintonia. Sentamo-nos, ouvimos, respiramos em sincronia com estranhos. É um ato de rendição — daqueles que os holandeses parecem compreender instintivamente, da mesma forma que conseguem criar harmonia a partir do caos.

Uma noite, há alguns anos, encontrei-me numa lavandaria junto ao Prinsengracht, à espera que o ciclo de centrifugação terminasse. Lá fora, a chuva caía de lado. Lá dentro, só se ouvia o som dos tambores — o ritmo lento e circular da rotação. Por um momento, pensei: é isto. Isto é ouvir. A cidade, a máquina, a chuva — tudo a funcionar em sincronia.

É isso que Amesterdão faz. Ensina-nos que tudo — até mesmo as correntes subterrâneas, até mesmo a espera — é música, se soubermos ouvi-la.

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Tal como em Tóquio e em Londres, a cultura sonora de Amesterdão vibra por baixo da superfície — uma conversa lenta e interminável entre o silêncio e o som.

Num mundo que se apressa para ser ouvido, Amesterdão ouve.

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