Bares de escuta em Ottawa — Silêncio do rio, Clareza do norte, Quietude da capital — Guia «Tracks & Tales»

Onde o rio Rideau corre em silêncio e cada divisão parece estar em sintonia com a estação do ano.

Por Rafi Mercer

Ottawa revela-se lentamente, daquela forma suave própria das cidades do norte — através da luz, da temperatura e do silêncio que se instala entre os momentos. Dê um passeio ao longo do Canal Rideau ao anoitecer, no inverno, e poderá ouvir como a cidade respira: lâminas a cortar o gelo ao longe, um autocarro a suspirar nos semáforos, o murmúrio baixo de um bar na Elgin à medida que a porta se abre e se fecha. Os edifícios governamentais podem dominar a linha do horizonte, mas a verdadeira Ottawa acontece nas ruas lá em baixo, nos espaços onde as pessoas se reúnem para se aquecerem e ficarem um pouco mais tempo do que pretendiam.

Em Hintonburg e no Glebe, o som irrompe suavemente de pequenos recantos — um gira-discos atrás do balcão de um café, um disco de jazz a tocar em loop numa sala estreita acima da Bank Street, uma lista de reprodução escolhida a dedo em vez de deixada a tocar aleatoriamente. O ritmo bilingue da cidade acrescenta a sua própria textura: o inglês e o francês a misturarem-se, vozes da rádio a atravessarem o rio vindas de Gatineau, velhos discos de chanson a partilharem espaço com jazz espiritual e álbuns eletrónicos tranquilos. Ottawa ouve em camadas.

Há aqui uma clareza no ar que altera a forma como a música nos atinge. Em fevereiro, quando a neve acentua cada contorno, o piano parece mais próximo, mais íntimo; no final de setembro, com as árvores ao longo do canal a mudarem lentamente de cor, as cordas parecem abrir-se para o céu. As pessoas estão habituadas a estações que exigem atenção — reparam no que o tempo está a fazer, na forma como a luz incide, no que levam consigo quando saem à rua. Essa mesma atenção reflete-se na forma como escolhem um bar, um disco, um lugar junto à janela.

A cultura de escuta de Ottawa não surge como uma tendência; cresce a partir do próprio temperamento da cidade. Os espaços que importam parecem mais refúgios do que palcos — as mesas mantêm-se um pouco mais tempo à volta de uma garrafa, as mangas deixadas abertas sobre a mesa enquanto os amigos conversam entre músicas, a música presente o suficiente para moldar a noite, mas nunca forçada a provar o seu valor. Senta-se com uma bebida, com a cidade a mover-se silenciosamente para além do copo, e percebe que a quietude da capital não é, de todo, vazia. Está repleta de detalhes, paciência e sons à espera de serem ouvidos.

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Num mundo em que todos se apressam a fazer-se ouvir, Ottawa ouve.


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O Registo de Escuta

Um pequeno vestígio para dizer: estiveste aqui.

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