Por que é que o vinil japonês continua a ser importante: importações, bares de audição e a arte do som
Por Rafi Mercer
A primeira vez que tive nas mãos uma edição japonesa, ficou claro: isto não era apenas um disco, era uma obra de arte. A capa tinha peso, o papel apresentava textura, a fita obi envolvia-a como um selo de autoridade. Ao retirar o vinil da capa, a diferença continuava — superfícies mais lisas, sulcos mais profundos, uma atenção quase obsessiva à fidelidade. Eram discos feitos com reverência.
Durante os anos que passei na Virgin, comprei muitos discos de jazz importados, sobretudo aquelas reedições em vinil japonesas de edição limitada. Na altura, via-os simplesmente como produtos: algo que os colecionadores ansiavam, que conferia maior prestígio ao catálogo da loja. Mas, olhando para trás agora, com o conhecimento da tradição dos bares de audição no Japão, percebo que esses álbuns importados faziam parte de algo maior. Não eram apenas mercadorias. Eram expressões de uma cultura que acreditava que ouvir música era uma forma de arte por si só.
No Japão do pós-guerra, o jazz era mais do que música; era aspiração, evasão, comunhão. Os cafés «kissaten» tornaram-se santuários onde os discos importados eram tocados a um volume quase de concerto, com altifalantes frequentemente equipados com cornetas e uma etiqueta monástica. O silêncio era obrigatório, a atenção exigida. Os próprios discos tornaram-se objetos sagrados, escolhidos com cuidado, manuseados com cerimónia. Nesse contexto, faz sentido que as prensagens japonesas tenham adquirido uma reputação de perfeição. Se a audição ia ser tratada como um ritual, então o suporte tinha de ser imaculado.
A engenharia justificava essa admiração. As fábricas de prensagem japonesas utilizavam compostos de vinil de maior qualidade, o que resultava em superfícies com menos ruído. A masterização era frequentemente realizada com foco na clareza e no equilíbrio tonal, mesmo em títulos de jazz de baixo custo. A embalagem era igualmente meticulosa — capas de cartolina grossa, encartes com traduções e ensaios, fitas «obi» que acrescentavam tanto informação como misticismo. Para os colecionadores de Londres, Nova Iorque e Berlim, estas prensagens pareciam talismãs: prova da dedicação de outra cultura ao som.
Vi os clientes a procurá-los nas lojas. Alguns queriam a fidelidade. Outros queriam a escassez — a emoção de possuir algo raro. Mas a maioria, penso eu, reagia instintivamente à aura. Segurar uma prensagem japonesa era uma sensação diferente. Sugeria seriedade, conhecimento especializado, um respeito pela música que correspondia à reverência que se sentia enquanto ouvinte.
A ligação aos bares de audição é agora óbvia para mim. Aqueles cafés, com as suas colunas imponentes e prateleiras repletas de discos cuidadosamente selecionados, eram manifestações físicas da mesma filosofia que moldou os próprios discos: que a música merecia respeito, espaço e silêncio. As edições importadas não eram um mero acessório dessa cultura; eram a sua moeda corrente.
E talvez seja por isso que estes discos continuam a ser importantes hoje em dia, mesmo numa era de streaming e de omnipresença digital. Eles lembram-nos que o som não é descartável. Eles personificam a convicção de que a forma como algo é feito — os sulcos, o peso, a capa — determina a forma como é ouvido. Eles ligam-nos a uma tradição de audição que insiste na paciência, na concentração e no cuidado.
Quando penso agora naqueles anos, rodeado de gira-discos e pilhas de discos de vinil, percebo o quanto essa filosofia se me incutiu. As importações japonesas que comprava para as lojas eram mais do que simples stock. Eram fragmentos da dedicação de outra cultura à música, fragmentos que, desde então, se espalharam por todo o mundo, influenciando o surgimento de bares de audição na Europa e na América e inspirando uma geração a ouvir de forma diferente.
Hoje, ao colocar a agulha num desses discos — talvez uma reedição de Miles Davis, com a capa ainda impecável após décadas —, consigo sentir essa continuidade. Não só a música, mas também o ofício, a filosofia, a insistência de que o som merece espaço. O próprio vinil carrega essa história, cada sulco gravado com a convicção de que ouvir não é algo de segundo plano, mas sim de primeiro plano; não é um passatempo, mas sim uma filosofia.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui ou clique aqui para ler mais.