A Biblioteca de Álbuns da Kissa

A Biblioteca de Álbuns da Kissa

Vinte discos para uma sala concebida exclusivamente para este fim

Em qualquer kissa que se preze, há uma prateleira que revela tudo o que é preciso saber sobre o proprietário.

Não é o equipamento — o equipamento dá nas vistas. A prateleira é mais discreta. É ali que residem as escolhas. Décadas delas, acumuladas sem lógica nem ordem, organizadas apenas pela gramática interna de alguém que passou uma vida inteira a ouvir com atenção. Observas-a da mesma forma que lês um rosto. Ela diz-te que tipo de noite esta vai ser.

A tradição do «kissa» — o café de audição japonês que surgiu nos anos após a Segunda Guerra Mundial, quando os discos eram caros e os amplificadores ainda mais raros — nunca teve realmente a ver com o equipamento. Tinha a ver com a coleção. Com o guardião que passou trinta anos a constituí-la. Com as decisões sobre o que ficava e o que não ficava. Com a compreensão de que certos discos merecem uma sala concebida para os acolher, e que certas salas merecem discos à altura do que são capazes de oferecer.

Esta é essa coleção. Vinte discos escolhidos não por género ou época, mas por uma única qualidade: eles dão-te algo em troca quando te sentas em silêncio. Quando o baixo atinge o volume para o qual foi concebido. Quando o espaço entre as notas se revela. Quando a quarta audição descobre algo que a primeira não encontrou.

Organizado da mesma forma que o dono de um kissa organiza uma noite — desde os discos que dão início à noite até aos que a encerram.

Abertura da sala

Estas músicas ajudam-te a entrar no clima. Espaciais, melódicas, sem pressa. Só te pedem que te sentes.

Miles Davis — Kind of Blue (1959) O início do jazz modal e, para a maioria das pessoas, o início da audição atenta. Aqui, nada é feito à pressa. Davis toca num volume de conversa e espera que o ouvinte o acompanhe nesse tom. Todos os kissa de Quioto têm uma cópia deste álbum desde que foi editado.

Donald Byrd — The Cat Walk (1961) Antes dos discos de funk, antes da fusão de estilos, havia isto — Byrd numa pequena sala com uma secção rítmica que compreendia o espaço. Começa de forma tranquila e mantém esse tom. Um álbum que cria o ambiente.

Terry Callier — What Color Is Love (1973) Callier gravou este álbum em Chicago e o som é único. Folk, soul, jazz — nenhuma dessas palavras o descreve totalmente. O que realmente se destaca é a sua voz, que requer bons médios para ser devidamente transmitida. Da primeira vez que o ouvimos num sistema de som de qualidade, compreendemos porque é que este disco tem vindo a ser discretamente partilhado entre ouvintes exigentes há cinquenta anos.

Hiroshi Suzuki — Cat (1975) Gravado em Tóquio em 1975 e praticamente desconhecido fora do Japão até recentemente. Suzuki toca trombone sobre arranjos que oscilam entre o jazz e algo mais íntimo — húmido, lento, singular. Um disco que chegou tarde à maioria das coleções, mas que se integrou imediatamente. Os bares de Osaka têm-no tocado há décadas.

Marlena Shaw — The Spice of Life (1969) A voz de Shaw foi feita para sistemas com calor. Este disco nunca esteve na moda, mas sempre foi excecional. Ponha-o a tocar no início da noite, antes de alguém ter entrado num determinado estado de espírito.

A hora principal

Álbuns que merecem toda a atenção. Espaciais, complexos, concebidos para serem ouvidos no volume a que se destinam.

Donald Byrd — Street Lady (1973) Foi aqui que Byrd encontrou o ponto de encontro entre o jazz e o funk dos primórdios e decidiu ficar. O baixo neste disco precisa de um piso. Num sistema de som a sério, soa de forma diferente — não mais alto, apenas mais presente. Este é o disco que fez as pessoas compreenderem para que servia, na verdade, uma sala de audição.

Donald Byrd — Places and Spaces (1975) O trabalho mais completo de Byrd. Com arranjos de Larry Mizell, produzido com uma precisão que só se revela quando se aumenta o volume. Camadas que não se percebem no altifalante de um telemóvel ganham vida num sistema de som adequado. Um disco que merece o seu lugar na hora principal de qualquer sessão de audição a sério.

Masabumi Kikuchi — Poo Sun (1970) O jazz japonês na sua forma mais exploratória. Kikuchi tocava jazz livre numa altura em que a maior parte do jazz japonês ainda tentava soar a americano. Este disco não soa a nenhum dos dois países, e é precisamente por isso que tem o seu lugar num kissa.

Courtney Pine — Journey to the Urge Within (1986) O álbum de estreia de Pine, gravado quando tinha vinte e três anos. A urgência do título não é uma estratégia de marketing — está na forma de tocar. Um álbum de jazz gravado em Londres que soa como se tivesse sido feito sob pressão, o que de facto aconteceu. É um álbum que vale a pena ouvir em volume alto.

Nujabes — Modal Soul (2005) O álbum que levou o som dos bares de música de Tóquio a uma geração que nunca lá tinha estado. Nujabes criou este álbum a partir de samples de jazz e de uma estrutura de hip-hop, e o resultado situa-se precisamente na intersecção destes dois mundos. É a página de álbum mais visitada deste site, o que não é por acaso.

Fela Kuti — Zombie (1977) Não é um disco fácil de ouvir. Nem foi concebido para o ser. Fela criou este disco como um instrumento político e a tensão que nele se faz sentir é física — é necessária toda a amplitude de um altifalante para transmitir o que ele realmente quer dizer. Numa sala de audição, torna-se algo quase confrontacional. É esse o objetivo.

Profundidade e textura

Álbuns construídos em camadas. Daqueles que soam diferentes na quarta vez que se ouvem do que na primeira.

David Sylvian — Secrets of the Beehive (1987) O álbum mais silencioso desta lista e, possivelmente, o mais exigente. Sylvian compôs-o com uma atenção quase dolorosa ao espaço — o que não é tocado é tão cuidadosamente pensado como o que é. Requer uma sala com boa acústica e um ouvinte com paciência. Retribui ambas as coisas.

São estes os discos que se ouvem a tocar baixinho no Bar Martha, em Ebisu, muito depois da meia-noite.

Massive Attack — Blue Lines (1991) O álbum que definiu o que o baixo podia significar num espaço doméstico. Bristol, 1991, e um grupo de pessoas a tentar descobrir o que fazer com o som quando a pista de dança não era o destino. As baixas frequências deste álbum exigem um piso capaz de as suportar. Num sistema de som adequado, numa sala silenciosa, soa como se tivesse sido gravado ontem.

LTJ Bukem — Logical Progression (1996) Drum and bass concebido para ser ouvido, em vez de para dançar, o que, em 1996, constituía uma proposta radical. Bukem criou este álbum a partir de samples de jazz e texturas atmosféricas, e o resultado é um disco que se integra na sala de audição de forma mais natural do que quase qualquer outro álbum da sua época.

UNKLE — Psyence Fiction (1998) Um álbum que soa incompleto em colunas pequenas e completo em colunas grandes. A produção — Mo' Wax, 1998, tudo processado em analógico no último momento antes de o digital assumir o controlo — tem um peso que só um sistema de som a sério consegue revelar. Vale a pena ter paciência.

Tardio e baixo

Para o final de uma face. Mais lento, mais intimista. Os discos que se põem a tocar quando o ambiente já se acalmou.

Nujabes & Shing02 — Luv(sic) Hexalogy (2015) Seis movimentos criados ao longo de uma década, concluídos após a morte de Nujabes. Deveria parecer inacabado. Mas não parece. É como uma sala à qual se regressa. Para ouvir tarde da noite, em volume baixo, o tipo de disco que nos faz tomar consciência de onde estamos sentados.

Murcof — Martes (2002) Fernando Corona criou este álbum em Tijuana, utilizando samples clássicos e uma arquitetura eletrónica, e o resultado não se assemelha a nenhuma dessas influências. Frio, preciso e, estranhamente, acolhedor numa boa sala. Um disco que chega ao fim da noite e altera a sua temperatura.

Uyama Hiroto — A Son of the Sun (2008) Hiroto foi aluno de Nujabes e este álbum dá continuidade a essa tradição sem a copiar. Com a flauta em destaque, sem pressa, concebido para aquele momento em que a conversa já terminou e o ambiente assume o protagonismo. Soa bem em volume baixo, o que é mais raro do que parece.

Jamie xx — In Colour (2015) Um álbum sobre a memória e a distância que soa exatamente como ambas. As frequências graves foram concebidas para sistemas de grande dimensão, mas comportam-se de forma diferente numa sala de audição pequena — mais íntimas, mais presentes. Vale a pena ajustar a posição da cadeira para o ouvir.

Cautious Clay — Blood Type (2018) O álbum mais recente desta lista e aquele que herda mais diretamente o cânone do kissa — estrutura de jazz, textura eletrónica, uma voz que requer bons médios para ser devidamente apreciada. O álbum que é mais provável ouvir nos bares mais recentes de Seul neste momento. A tradição continua viva.

O que é que faz com que um disco seja ideal para uma sala de audição?

Não se trata de género. Nem de época. Um disco para ouvir em ambiente acustico oferece-lhe algo em troca quando se senta em silêncio — onde os graves soam de forma diferente consoante o volume, onde o espaço entre as notas é tão cuidadosamente pensado quanto as próprias notas, onde a quarta audição revela algo que a primeira não revelou. Cada disco desta lista foi escolhido exclusivamente por essa qualidade.

Preciso de vinil para utilizar esta lista?

Não. Estes álbuns estão disponíveis em todas as plataformas de streaming. O vinil impõe um ritual — virar os lados, limpar os discos, dedicar quarenta minutos — que contribui para a experiência de audição num bar, mas um sistema de streaming bem configurado, ligado a um amplificador adequado, terá um desempenho superior ao de um gira-discos de gama média na maioria destas gravações.

O que faço depois desta lista?

Os 50 melhores álbuns para uma audição atenta alarga ainda mais o cânone. E o Guia de bares para ouvir música em casa abrange o espaço, o sistema e o ritual que fazem com que tudo isto valha a pena.

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