Fred again... e a «Actual Life of Sound»: À procura da excelência

Fred again... e a «Actual Life of Sound»: À procura da excelência

Por Rafi Mercer

Nos últimos dois anos, tenho ouvido o Fred novamente… mais do que quase qualquer outra pessoa. Não de forma casual, nem de passagem, mas com atenção. Estudei a sua história, as suas colaborações, as relações que constituem a espinha dorsal do seu som. Prestei atenção aos padrões, às hesitações, aos avanços. E quanto mais ouço, mais me convenço de que muitos de nós estamos a deixar escapar algo. A grandeza ainda não é totalmente visível — mas está lá, a formar-se, como uma silhueta logo abaixo da superfície da água.

A trilogia «Actual Life» é o exemplo mais claro deste processo. Estes álbuns não são apenas coleções de faixas; são diários, construídos a partir de fragmentos de notas de voz, conversas e gravações de campo. Trechos de mensagens do WhatsApp e mensagens de voz são incorporados nas canções, sendo depois sobrepostos por linhas de piano, arcos eletrónicos e batidas que transmitem uma sensação simultaneamente frágil e urgente. Por vezes, é desordenado, inconcluso, inquieto — e é precisamente essa a ideia. Ouvir «Fred again..» é como ver alguém a pensar em voz alta através da música. Nem sempre faz sentido. Mas a genialidade raramente faz sentido nas suas fases iniciais.

As suas atuações ao vivo transmitem a mesma energia. A já icónica atuação no Boiler Room em 2022, num clube lotado de Londres, parecia menos uma apresentação e mais uma manifestação coletiva — crua, eufórica, profundamente humana. A atuação no «Tiny Desk» simplificou ainda mais as coisas, mostrando como canções que parecem fragmentadas no disco podem transmitir calor e clareza quando interpretadas cara a cara. Ele transita entre estes contextos com uma fluidez que sugere instinto, em vez de cálculo, uma vontade de deixar que a música se molde de acordo com o espaço.

Não é por acaso que Brian Eno não é apenas um vizinho, mas também um amigo e mentor. É possível perceber a influência — a abertura, a disposição para abraçar a incerteza, a recusa em polir tudo até ficar perfeito. Eno já falou sobre a forma de trabalhar de Fred, semelhante a um diário, transformando os fragmentos da vida quotidiana em canções que parecem vivas. A presença de Eno não ofusca; ela enquadra. Dá a Fred a liberdade de confiar no processo, de deixar que a música seja uma conversa em vez de um produto.

O que mais admiro nele é a sua singularidade. Num mundo em que a música eletrónica pode tão facilmente cair em fórmulas, o Fred again.. resiste. Ele abraça a imperfeição. As vozes estão distorcidas, os ritmos vacilam, as amostras são inseridas de forma desajeitada. No entanto, de alguma forma, tudo se mantém coeso, porque por baixo de tudo isto está a honestidade. Estas não são faixas concebidas para impressionar. São faixas concebidas para fazer sentir. E, por vezes, isso significa que parecem confusas, fragmentadas, inconclusivas. Mas a vida é assim, não é?

Acho que estamos numa fase em que o seu som ainda está em desenvolvimento, ainda em evolução. Com o tempo, a grandeza irá cristalizar-se de forma mais clara. Os fios irão entrelaçar-se mais firmemente, as experiências irão encontrar o seu equilíbrio. Mas mesmo agora, neste estado inacabado, há algo de notável em ver um artista tornar-se ele próprio em tempo real. É como estar num edifício ainda em construção e já sentir a grandiosidade do que será quando estiver concluído.

Ouvir o Fred novamente… ensinou-me tanto sobre a arte de ouvir como sobre ele próprio. Sentar-me a ouvir música que não se resolve de forma clara, prestar atenção aos pequenos detalhes — uma voz emprestada por um amigo, uma linha de piano que se desvanece em ruído estático, um ritmo que mais se assemelha a um batimento cardíaco do que a uma batida. Não se trata apenas de truques de produção. São convites para ouvir de forma diferente, para perceber a música como um processo, como uma conversa, como algo vivo.

Sei que nem toda a gente o vê desta forma. Há quem o descarte por ser demasiado cru, demasiado sentimental, demasiado fragmentado. Mas, para mim, isso faz parte da genialidade. É preciso um tipo específico de mente para criar assim — uma mente disposta a expor-se, a mostrar as costuras, a deixar as perguntas sem resposta. Talvez a sua mente seja especial de uma forma que a maioria ainda não consegue ver. Eu consigo. E admiro a coragem que isso demonstra, a recusa em conformar-se com o que se espera.

A grandeza nem sempre é imediata. Por vezes, surge em fragmentos, em indícios, em vislumbres do que poderá vir a ser. É aí que acho que o Fred again.. se encontra neste momento. No limiar. E, enquanto ouvintes, temos o privilégio de assistir a essa evolução.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui ou clique aqui para ler mais.

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