Bares de Escuta de Cusco — eco ancestral, silêncio das montanhas, som cerimonial — Guia Tracks & Tales
Onde a altitude aguça a atenção.
Por Rafi Mercer
Cusco ouve de dentro para fora. A esta altitude, o som comporta-se de forma diferente. Propaga-se mais lentamente, permanece no ar por mais tempo e parece carregar o peso da pedra, da respiração e da história. Outrora capital do Império Inca, Cusco encara a música não como entretenimento, mas como herança — algo que se recebe, se protege e se transmite.
É nas ruas que se ouve primeiro. O som suave e agudo da flauta quena. A intimidade das cordas dedilhadas do charango. Vozes que se unem, não para atuar, mas para marcar o tempo e o lugar. Aqui, a música é indissociável do ritual. Acompanha festivais, procissões e a vida quotidiana, entrelaçando-se com igual seriedade nas cerimónias católicas e na cosmologia pré-colombiana. Ouvir música em Cusco é, muitas vezes, uma experiência devocional.
Ao contrário da disposição em camadas da costa de Lima, o som de Cusco é vertical. Ele sobe e desce ao ritmo das montanhas que a rodeiam. As praças coloniais da cidade, os muros de pedra incas e as ruelas estreitas criam câmaras naturais onde a música reverbera suavemente, nunca de forma agressiva. O silêncio faz parte da composição. As pausas são importantes. A ausência de som pode parecer tão intencional quanto a sua presença.
Nos últimos anos, Cusco tem atraído artistas e ouvintes seduzidos por esta contenção. Produtores de música ambiente, adeptos do renascimento do folk e músicos experimentais chegam em busca de espaço — não apenas físico, mas também mental. Pequenos cafés e espaços culturais acolhem sessões de audição onde o volume é secundário em relação à concentração. Os discos de vinil giram lentamente. Os instrumentos acústicos são os preferidos. O objetivo não é a imersão através da intensidade, mas sim a imersão através da atenção.
A cultura de escuta de Cusco resiste ao espetáculo. Mesmo durante as celebrações, há uma sensação de enraizamento — a música como forma de nos mantermos ligados à terra, aos antepassados e à memória coletiva. Não é uma cidade que grite o seu som para o exterior. Em vez disso, convida-nos a sintonizarmo-nos interiormente até estarmos prontos para a ouvir.
Ouvir bem em Cusco é desacelerar o corpo, suavizar as expectativas e aceitar que algumas músicas não se destinam a impressionar — mas apenas a perdurar.
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No alto dos Andes, Cusco escuta como um ato de continuidade.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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O Registo de Escuta
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